sexta-feira, março 06, 2009

Como facilmente se irritar

Quem quer que escolha uma profissão pensa no dinheiro e em sua capacidade intelectiva -idiotice ideologias e verborragias contrárias. E após três anos empacado igual a Uno, a idade chega, papai não suporta mais a cara do filhinho do coração. Está na hora de ajustar o saco dentro da cueca e caçar algo para fazer. Fui a São Paulo.
Em meu escolhido-forçado lugar ao lado do banheiro (voltei de outra viagem em cima da hora e fiquei com o rebotalho da Viação Garcia) encostava-se uma cabeça cheia de fios brancos, pelos de coberta, asas de mosquito e outras coisas que não sei o que eram até hoje. Sandálias jogadas, pés encardidos infectando o assento. Sabia que não era sua poltrona -estava estampada na porra da passagem para qualquer semianalfabeto-, mas quando disse: “- Este é meu lugar”, respondeu-me com um muxoxo: “- Ah, é?” O fedor das unhas entupidas de terra atacou-me a renite. Para cagar, o fone de ouvido pifou. Recoloquei os óculos de sol -mesmo com nuvens que deixavam a manhã de cara emburrada- enquanto retorcia o fio para ver se a merda do MP3 me aliviaria -a mesma estupidez com que se dá pancadinhas no controle remoto. Nada.
- Viajar de ônibus é complicado, né?
- É.
- Demora tanto! Saiu de Maringá às sete. E só vai chegar às cinco e meia.
- É.
- O bom é viajar de avião. Rapidinho chega. De Maringá a São Paulo não dá nem uma hora - fechou sua “afirmação-revelação” com um risinho irônico do tipo: “- Este desgraçado nunca andou de avião.”
Resguardei o desgastado monossílabo nos lábios cerrados. Olhava a paisagem emoldurada na cortina entreaberta. Se estou na porra da janela, eu decido se meu companheiro vê. É para isto que se compram bilhetes para a janela. E para dar cotoveladas na cabeça de chatos ao ir ao banheiro. Merecia um soco. No entanto, não podia ser tão espontâneo.
Tentar se prender em imagens que se pinta e se passa a borracha com a mesma rapidez é um saco. A mesma merda é ir a São Paulo, Maringá, Londrina, Apucarana; a natureza é legal desde que se possa, ao menos, tocar uma punheta a ela -vê-la escorregar com os olhos esfumaçados é como assistir a filmes pornôs sem descascar uma.
Meu caro colega gozava sua experiência “não compartilhada” a Recife. Contava-me como é olhar tudo “pequeno”. Eu, na maioria das vezes, não gastava palavra. Em outras, expirava mais que respondia.
Uma linda menininha com melenas louras dormia no colo de uma gorda horrenda dois bancos à frente e à direita. Adoro crianças, quer dizer, minha sobrinha de quase cinco anos -pesa o fato de aturá-la só algumas horas a cada semana. A infeliz acordou num solavanco e começou a chorar -“monocanto” inspirado em Bruno e Marrone, Paramore, NX Zero, Fresno, Dinho Ouro Preto, Chitãozinho e Xororó e desafinado como Zezé di Camargo e Luciano. Seria legal se pudesse colocá-la com a cabeça na privada e dar descarga! Mas não passava, eu sei.
A bosta do ônibus parou às onze e meia para o almoço. Na volta, meu vizinho se exaltou com a potência do ar condicionado.
- Lá fora é tão quente. Aqui é tão fresquinho.
“Não é para isto que esta porcaria serve?”
- Avião é bom. É tudo rapidinho. Já andou de avião?
- Já - retorci o lábio, saboreando o veneno. Seu rosto se retraiu. Soltou um risinho mudo e se virou, calado. Eu tinha arrebentado seu orgulho medíocre. A lazarenta criancinha abrira a boca de novo.
Pode-se até considerar paranoia da Teoria da Conspiração, quando viajo em coletivos nunca uma gostosa senta a meu lado. É fulano roncando, sicrano peidando e beltrano de odores estranhos no sovaco. Nem nas paradas as ninfetinhas surgidas dos desvãos -nem nesta hora compartilhada conosco, mortais cheios de piolhos, manchas esquisitas e que falam alto- me olham. Passo longe de um Gianecchini, Pitt, Gere etc. etc. Só que não sou esteticamente tão desprezível assim, minha mãe jura. Por que dão moral a seres que a própria mãe tem vergonha de acompanhá-los nas ruas? Histórias contadas e recontadas por qualquer amigo “pegador”.
Se for noite é fácil dormir, óbvio. Durante o dia, as coisas se complicam, perdem-se na sinfonia de Ruffles e arrotos seguidos de tosses -“ninguém” percebe a porqueira do imbecil. Na falta de nicotina, meu humor fica tremendamente instável.
- Vai aonde.
- Ao Limão (se fosse da conta dele).
- Por que não desce na ponte do (sei lá que porra)?
- Meu tio me espera na rodoviária.
- Mas é muito mais perto. Ligue para ele e fale para esperá-lo lá.
- Não.
Estupidamente incrível como as besteiras de uma vida ordinária se transformam na quintessência de alguém que tem nada a ver. Desço onde quiser, caralho! Se descesse na puta que pariu o problema seria meu, dependendo de quem fosse a puta, é claro.
A criança tinha voltado a encher minha cabeça com aquele grunhido deformado. Pensei no travesseiro. Teriam me agarrado antes de sufocá-la. Meu coleguinha pulou os degraus sozinho. Sobrou mais espaço. Pena que a viagem estava acabando!
(Mesmo com as aporrinhações dos ônibus, sempre fico melancólico nas chegadas. É porque a coisa saiu da metafísica, arrebentando-se no chão imundo dum encaradido, opaco e remelento banheiro em que viciados se picam. Como quando se descobre que Jesus passava o saco em Maria Madalena.)
Na fila, a adiposa -suada e descabelada- sustinha a criancinha. Estava eu logo atrás. A menininha me olhou. Pensei em fazer uma careta e gritar “Buuu!” A infeliz já estava demasiado assustada com minha carranca de poucos amigos que fiz questão de sublinhar. Pela janela, vi um senhor no banco de concreto, boné de autoposto e blusa de lã nas mãos no calor insuportável do março paulistano. Cacoete de velho. Ou da minha família.

5 comentários:

Mongo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mongo disse...

Putz cara... Viagem é foda mesmo... Ainda bem que quando eu viajo, é de noite e normalmente, na janela...
Mas o problema de viajar a noite como eu faço é que, como eu tenho insônia, demoro um monte pra dormir... E tenho que ouvir os podres roncos de pessoas que eu não conheço... Ainda bem que o mp3 me acompanha...
Em relação a gostosa do lado, bom, pelo menos a que foi do meu lado quando fui pra curitiba, fazia questão de não encostar em mim.. Como se eu fosse um doente... Mas quando ela pegava no sono, encostava sua perna em mim, ou passava a sua bunda na minha perna...
E eu, com meu mp3... Ainda bem que ele me salva...

Abraço!!!

Cássio Gonçalves disse...

Cara, boa sacada...
Uma vez, naqueles trechos de cidadezinha de interior, um senhor bêbado com um chule infeliz, dormiu num banco atrás do meu sem tênis, e colocou o pé no vão entre a janela e o banco. O cheiro foi todo pra mim. Tive que empurrar o pé do cara para ele se tocar, foi hilário...
Mas a sacada mesmo foi ter falado da metafísica de um viagem. Nesse sentido a viagem é dupla. É quase impossível não ser abstrato nessas horas. É, de certa forma, a angústia e o prazer lado a lado.
Para evitar os chatos, levo sempre um livro como estratégia.
Para atrair mulher bonitas no banco do lado, tem uma tática que li na piauí. É só colocar um travesseiro no banco da janela (o lugar que elas mais gostam), de forma que o lugar pareça ocupado e, quando perceber que entrou alguém interesante, libere. Nunca testei o método, mas o cara que deu o testemunho disse que conheceu várias mulheres assim... rssr. O foda de viagens longas é que os assentos são marcados.
Um abraço.

Anônimo disse...

Imagino seu bom humor após essa romaria. Não gostaria de ter presenciado.
Beijo!

Luana disse...

"Durante o dia, as coisas se complicam, perdem-se na sinfonia de Ruffles e arrotos seguidos de tosses". Dudu, vc é o cara. Seu humor mal-humorado é único. Continua escrevendo pra caramba! Não sabia desse teu blog, passarei aqui mais vezes!
Beijãaao!!
Luana