Domingo, Novembro 22, 2009

Tchau!

Ela está ali. Seu tórax  esvoaça em gargalhadas. Os cabelos negros salpicam as bochechas branquinhas, sentem o rosto arredondado burilando a boca grossa. Mantenho-me longe. Gotas de Primavera arrebentam a janela, dão socos fortes e doidos. Duas meninas correm ao canto escuro em que as meninas não são mais meninas. Todo mundo quer correr aos cantos escuros, os pés inchados congelam. Meus pés doem. De verdade. Vá tomar no cu, acho que disse quando vi o horripilante rosto amarrotado refletido esta manhã. Limpa-se a remela e o dia morre. Marcos arruma coisas de que preciso. Ele, aquele filho da puta, ele também sabe que sabe mais que eu. E me zoa por isso. 
Estacada no sofá, pernas brancas correndo-me aos olhos, a primeira vez que a enxerguei. Ela percebeu e apanhou tentando aumentar o vestidinho preto meio metro. Tosco, havia me esquecido de que estava na porra do lugar em que a palavra de Deus vale mais que quando cuspida pelo nazista com o cu no Vaticano: a Universidade. 
Vai além duma xoxotinha quente e macia meter. Está entrecortado em sorrisos irônicos ou emotions inocentes que deixam a gente pateta. Enrolo o que nunca soube e a observo, de esguelha, cochichando com alguém, reclino a cabeça assim que me encara. Sorri e mareja as pupilas rutilantes ao nada, cabeça pendida à esquerda. 
Murchou ela tempos atrás ao chamá-la de clichezinho. Curvou-se e se escondeu, enfiando-se no banco, contorcendo a boca. Tenho o costume besta de rotular o que não entendo nalgumas coisas que penso entender. Por isso talvez seja ela o clichê requintado de Paulina; eu, uma canhestra cópia horripilantemente prensada de Alexei. 
Ela está ali, a se perder em gargalhadas. Tempos mais e se acostuma a não me ver; eu, a mesma coisa. E a vida segue. As noites chegam abafadas, as caras simpáticas e familiares se esmaecem. A gente só consegue peidar “- Tanto faz!”
Escrevi quatro anos antes um texto deveras piegas. Certeza que, mesmo longe, seriam sempre os mesmos, sempre meus amigos do curso idiota, mas que valeu a pena por tê-los encontrado. Recebi REs puídas tanto como havia forjado. Se arrisco a mencionar o apelido de um deles nalguma porra de página pública sussurra cuidados em recadinho recatado; há contatos de trabalho, executivos filhos da puta loucos para torrar alguém com as côdeas do pão baforento, e a manhã nasce caxinguelê. Trabalho é Vida. Ah, fodam-se!
Ela me enganou, não me deixou correr. Tenho medo de quem aparece estendendo a mão de veias intumescidas, soltando cheirinho de suor no pescoço melado. Pessoas fedem. Caricaturas enfiadas em Minhas Imagens, não. Todo mundo diz adeus e a gente fica. 
Ela brinca com o corpo cinzelado em peitos grandes e bunda redonda. À toa, não vê? Não entende que a safadeza casta e bucólica dá risinhos e pisca os olhos na sua voz almofadada remoendo “Eeee agooora?” 
O teto goteja. As bolhazinhas lépidas se esticam e fenecem, encerando o velho assoalho descascado que não arreda o pé. Adora ver vestidos escorregando em pernas diferentes todo os anos. Novembro estertora. E depois? 

* A uma Amiga. Para sempre, espero"


Sábado, Outubro 10, 2009

Resultado do ócio

São 09 e 12 da noite no meu computador. Estou esperando minha noiva ligar. É um sábado e espero minha noiva ligar! Meu quarto grita em suas laterais a longa tarde de hoje. Quente, extremamente quente! 
Tomei algumas cervejas assim que voltei de Londrina. Fazia tempo que não bebia assim. A barriga parece maior. Está lá embaixo, escarra minha impudicícia gastronômica ou minha ociosidade mórbida. Está lá. 
A farsa, a farsa de tudo que tenho sido. Trabalho de forma incompetente, sempre com a desculpa de que me meteram naquilo alheio à minha vontade. A questão é que não tenho capacidade intelectiva para enxergar o óbvio em muitas coisas. Escrevo mal, pessimamente, numa maldita farsa ululante recortada em livros que li e até que não li, dizem. Pode ser que todos sejam farsas, alguém já tenha feito as combinações, os joguetes possíveis com as palavras. Quem depois veio e vem tagarela. 
Está quase na hora de ela ligar. Roubado de coisas próprias, remendado em conceitos esdrúxulos e paralelos. A farsa enorme, mascarada, que entra no quarto e agarra o pescoço numa noite cheia de mormaço como hoje. 
Bruna me olhava mareando em piedade sempre que nos víamos. Passava calmamente sua mão mansa e breve no meu rosto, dizendo que tudo ficaria bem se fosse a hora. É, Bruna, você mentiu! Sua puta, você mentiu!
Mamãe faz perguntas óbvias enquanto se espreguiça no sofá, as respondo lacônico. Quando era criança ela era o referencial mais cativante da inteligência. Encaro-a, empurro o rosto com comiseração e complacência. O mundo dos fodidos! 
Ela demora a ligar. Demora a falar. Isto se transformou num ritual lancinante, sem nexo. Três vezes por semana, DDD. Nos outros, mensagens ou curto MSN. Ritual besta e infenso a pontos frasais. É preciso esperar. Um refém do outro a quilômetros de distância. Estúpida rendição! Temos pouco a dizer. A acrescentar, mais nada, quem sabe. As mesmas orações no começo, as mesmas expressões vazias no fim. Jogo de regras rijas e grotescamente definidas, rebolados mambembes, retardados.
Vejo quase todo sábado a lutas de vale-tudo na TV. A cabeça dos caras são feitas de borracha, se deformam a cada pancada e voltam ao normal logo que o punho sai. Devo ter brigado umas cinco vezes; apanhei. Dos desgraçados que bateram em mim me vingo com as lutas da televisão. 
São 09 e meia e a porta do quarto de papai e mamãe fez nhec. A idade chega e o amor se torna mais infantil, alcoólico. 
Talvez devesse saltar de paraquedas cortado na agonia em desconhecer se aquela porra abriria. Estar de cara, me ver desfigurado no chão, lá do alto. Abrir a boca e só tomar baforadas do ar contaminado por um cheiro requioso. E eu lutando com o paraquedas, me esfalfando, me matando com as cordinhas. Talvez nunca pule de paraquedas. Farsa se mantém farsa. Falta senso de humor para fazer este texto mastigável. Vou desligar esta porra e esperá-la ligar. 

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Mulheres

Perdi o cabaço da boca numa noite úmida, suada, de novembro. Loira, um tanto quanto pequena e rechonchuda. Os fios anelados do cabelo lhe espancavam a cara redonda, esburacada por duas pelotas verdes sorridentes. Era bonita mesmo assim. Fui meio forçado a me descabaçar. Ela, mais nova e muito mais esperta que eu, flertava comigo depois de receber um chute no rabo dum amigo que estava na roda. Outro amigo já enlaçava a mina que estava com ela. 
- Quer levar a gente embora? 
- Claro. 
Aconteceu quatro anos antes de eu entrar na faculdade, ou três. Talvez três. Elas moravam a vinte minutos numa rachada na botina. Ergui o braço e apoiei a mão aberta no rosto, puxei-o a mim. Devagar encostei a boca. E enfiei a língua canhestra na goela.
- Ei, vai com calma. Não quer que eu vomite em você, né?
Nojenta, estúpida, mas estiquei a língua e suguei-lhe os dentes com força. Era legal aquilo, legal para caramba. O quadril afastado para que não percebesse a situação em que eu estava. 
- A gente pode trazer as duas aqui e meter a vara -comentei, como se fosse coisa corriqueira aos fodedores de mãos, enquanto passava na volta com meu amigo em frente ao lugar em que estava trabalhando. 
Ela e meu outro amigo reataram tempos depois. Na roda -zoadas não têm graça com menos de cinco testemunhas- o namoradinho arrependido estrebuchou uma gargalhada. 
- Não é tirando você, mas ela disse que tinha vontade de cuspir enquanto te beijava. 
Sem broncas; havia me dado bem. Ninguém mais podia zoar da minha cara cabaça. 
Perdi o cabaço do pinto (meu, é claro) numa noite seca e mormacenta de dezembro. Dois ou um ano antes de entrar na faculdade. Meu irmão a levara junto com uma amiga para gente ver filmes na casa dum camarada que estava viajando. O cara quase tinha morrido crispado, coberto de vômito, em Floripa. Chamava-se Débora e era mais gata que Graziela, bem mais. Loira também. Esparramava um risinho de safada nos lábios finos, curvados. Eu já era bom no língua-a-língua; quinta ou sexta vez. Só que dava um nó nos dedos ao pensar que brincaria com uma xaninha de verdade.  
Arrastei-a para um quarto escuro e razoavelmente limpo. Comi bochechas, pescoço, peitinhos. Chupei tanto o direito que ficou estranhamente maior. Bem paranoico meu hábito de sorver tetas. Saquei a Jontex do bolso (a única que protegia contra a AIDS, diziam os vividos amigos imbecis). Pronto, o pau tombou. A embalagem! A porra da embalagem broxante. Levei uma surra daquele plástico imbecil. Travei-o no dente e consegui, enfim, rasgá-lo. O trem viscoso, escorregadio, fedido, usado -podia-se dizer- brotou. Juntei a camisinha e tentei fazê-la descer. Arrebentou. A escola não me ensinara a pôr simples camisinhas! De que me servira aquilo tudo? Bufei. Na segunda, ela pediu licença. Fixou-a graciosamente nos dedinhos e deslizou o plástico até encostar-se aos pentelhos. 
Depois de mais chapadas, a gente se engalfinhou em outra foda. “Chupar xoxotinha é muito bom”, diziam os colegas retardados da época -duvido que tenham chupado antes de mim. Corri a cabeça cada vez mais para baixo e a boca tocou num monte de pelos salgados, gostosos até, mas que cheiravam mal -fediam mesmo. Desencanei da ideia.
- Vamo. 
- Quero dar uma descansada. 
- Nem fodendo. Tenho que trabalhar amanhã. 
Perdi o cabaço de medrar cornos numa noite esturricada de janeiro, um ano depois de começar a faculdade. Não era bonita, entretanto tinha deliciosos peitos enormes, simetricamente oblongos; faziam o pau endurecer rapidinho. Ligava todo dia para o meu emprego, despejando sua voz de leite condensado. A gente marcou uma volta no parque. O Sol acachapante. Eu me deitei no seu colo e o nariz desproporcional brotou entre duas redomas. Cinquenta minutos fiquei com Rosana ali. Sem dar beijo a levei embora. Era lento para caralho, mais que agora. E nem Platão me limparia a  barra com seu amorzinho inerme. 
A gente estava sentado no banco debaixo da seringueira -mesmo parque- dias depois. Vi alguém girando a cabeça lá no alto. Mostrei-lhe. 
- É meu noivo. Não encara. Vira. Só vê se ele não vem. 
- Se vier, pico a mula. Quero ver me pegar.
- Tô fodida!
- Difícil pensar em duas pessoas ao mesmo tempo. 
Mas a coisa continuou. Dias depois a parei no canto escuro do muro duas esquinas antes do seu.
- Tá ficando sério - disse sem sequer tê-la beijado. 
- Também acho que tô gostando de você. 
Morena era Rosana. Olhei seus olhos, seus peitos, ergui o queixo e enfiei a língua espertinha em sua boca. 
- Vai. Ele deve estar vindo. 
Corri para baixo. Antes de virar numa rua, vi a moto do cara. Estuguei, fazendo círculos entre as vielas do centro araponguense mal feito. 
 - Vai embora às 11h -ela assegurou ao telefone. 
- Beleza, fico na esquina. Assim que sair, espero uns cinco minutos e subo. 
- Certo. 
Bati o telefone dando risada. Eu ia trepar aquela noite, os caras da mesa ao lado, no trampo, não. 
- Não veio. Ligou avisando que tinha um monte de coisa. 
- Tá metendo com outra. 
- Pode ser. 
- Tô gostando realmente de você. 
Rosana me guiou em um corredor estreito e caiado. A luz estava queimada no quarto da edícula. Detesto meter no escuro, grilo de faturar pela metade. Mesmo gozando antes do que esperava -nas duas vezes-, prendeu os olhos em mim, reverberando a luz negra do extremamente insuportável cubículo. 
- Amo você. 
- Isto é bom. 
A gente fodeu outras vezes. 
- Fica esperto. Ela gosta de vir com uma conversinha mole, que não consegue engravidar -alertou Josuel, colega do trampo. 
- Tô fora. Ela que vai dar golpe de barriga em trouxa.
O ventinho enregelado bafejava mesmo no verão. 
- Impossível continuar. Tô me envolvendo cada vez mais. E sempre tem ele -falei a Rosana, com uma cara consternada de fazer inveja, enquanto a gente se sentava no banquinho da praça. 
- Preciso de um tempo, você sabe disso. Me dá mais um tempo e eu largo dele. 
- Não tem como. Quem vai acabar se ferrando sou eu. 
- Só mais uns dias -rogou com voz nauseabunda. 
Entreguei-a no meio do caminho, em meio a uma batelada de condições absurdas para que a gente se visse. Saí cabriolando. Parei na sorveteria e pedi um imenso pedaço de torta de maçã, coberta com três bolas gigantes de sorvete.
Assistia à TV quando ela ligou cinco dias mais tarde. 
- Alô. 
- Oi. Tô com muita saudade.
- É?
- Larguei dele. 
- O que tenho a ver com isto? 
Abri a janela e o ar geladinho fora de estação se aproximou. Não se faz frio amiúde nesta época. 

Domingo, Setembro 27, 2009

Algumas necessidades

Ia eu dia desses ao meu cursinho de chás e bolachas em Londrina, e a pimpolha carolinha estimada ao lado jogando seus requintados cachos pretos nos meus olhos. A gente racha a gasosa e o pedágio. Ela me contava o medo que tinha de seu avô, que despejava uma canjebrina toda noite a Zé Pelintra. Fiquei com o maxiliar grudado o quanto pude. Mas, depois de três eternos segundos, dois incisivos saltaram da arcada:
- Jesus parecia um aspirador ligado em 220. Sobrava nem uma perninha de grilo por onde ele passava.
- Credo! Jesus, perdoa-o. Ele não sabe o que diz.
- Sei sim. Ah, é verdade! Contra Jesus tem perdão. O mais chapado da galera era então o Espírito Santo. Com aquela desculpinha etérea o bichinho flutuava em porres homéricos de coca e erva.
- Meu Deus do céu, pare com isso!
E eu, rindo, morrendo de rir. Piadinha sem graça, confesso. Porém seu rosto atonal, a expressão caricata, valeu todo o imundo conteúdo sarcástico de minha brincadeirinha. Coitada dela por não reverter com chiste igualzinho. Ateísmo, crença e a mesma bitola.
Veem-se ateus espalhando fanatismo assim como batem palma no meu portão membros da igreja do solzinho nas manhãs opacas pelo Sol domingueiro. Religião tem de ser discutida, concordo. Porém quem a ataca se acha tão jungido quanto quem a defende. Ou melhor, pode até ficar de lábios cerrados. Decidi escrever isto após ler alguns epigramas ateus na internet.
Quatro anos atrás resolvi dar uma diminuída -diminuída, não; parar mesmo- com algumas coisinhas (deixara a batina de coroinha e todo o sentido que a vida monástica, mesmo fora do monastério, pudesse ter), recomeçadas dois anos atrás. As nódoas amarelinhas sumiram dos dedos por uma coisa besta, mas com senso do caralho para mim. Livrara-me duma crença às custas de me empanturrar em outra. Ali queria ser livre do melhor jeito que desse; me esquecia da crença que tinha de ter naquela pseudoliberdade acima de tiques, vícios, cacoetes etc.
Fé, antes tê-la num Deus, é fé. Todos cremos. Paramos no semáforo vermelho (alguns nem tanto), respeitamos velhos (idem), passamos pelo caixa do supermercado (ibidem), saímos de sexta a fim de cachaça e fodas (não sei mais). Enraizamos, defendemos ideias, normas, como se elas pairassem num halo dourado.
A questão não é ser leniente com defensores de Jeová, Maomé, Buda ou qualquer outro. É saber que todos fedem à mesma merda. Arguições, mesmo saídas dum dito materialismo dialético, carregam cruzes, apóstolos.
Eu me encuquei semanas atrás se havia força no meu discurso, não muito importando a forma em que era forjado. Se alugém cairia no meu papo mole e faria o que eu quisesse simplesmente pelo teor da parole ou se seria levado pelas circunstâncias. Cheguei à conclusão de que toda a "locupletação" que o meu discurso medrasse atingiria na essência a mim e talvez a meus pais (disputinha tosca de filhos nas conversas entre amigos; oh, necessidade!). Em outras pessoas variaria conforme a necessidade delas -necessidade de afeto, por exemplo-, não a minha.
Algumas necessidades determinam o grau de fé numa mula ou no Deus do Evangelho. Necessidades entaladas nalguma parte da cachola.
A piada, eu continuo não a perdendo. Sempre que puder zoar com coleguinhas “crentes”, zoo; mesmo tão "crente" quanto eles. A necessidade de rir do mau gosto extremo!

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Amor

- Você vai continuar parada aí até quando?
- Até quando eu quiser. Não há mais nada a se discutir neste ponto.
- Você não consegue conversar.
Romeu jogou as mãos atrás da cabeça. Encostou-as no travesseiro amarfanhado. Na cama, o cheiro dorminhoco esfumaçava o ar, tornava-o turvo, mefítico.
- Você é um idiota, um estúpido, um estúpido que sempre deveria estar no mesmo lugar. Mas agora se acha capaz de mover, andar, sair, flanar.
Magda observava o mesmo mendigo de dois anos antes. Ele continuava ali, cabriolando entre cacos, sacos, e potes. O executivo de ternos claros saltitava tateando as grades do estacionamento externo. Sua garagem continuava muito apertada.
- Eles continuam iguais. Por que os abandona? – Virou-se bruscamente a Romeu. – Por que os abandona?
- Eles quem?
- Eu continuo a mesma. Por que me abandona?
- Abandono você e mais quem?
- Seus irmãos.
- Parece louca. Sabe que só tenho um.
- Não me venha com esta!
Magda bateu a ponta dos dedos na enregelada janela gotejando melancólicas bolhas de orvalho. O tom fleumático da manhã junina refletia-se nos seus irritados olhos castanhos. Beijou vagarosamente o inerme e irretorquível vidro pálido. Amorteceram os lábios.
- Devia ter matado você! Devia ter matado você – gritou na segunda vez. – Você me deve a vida por isto.
- Quanta bobagem! - Romeu permanecia imóvel. Ruga alguma lhe escorregava na testa.
- Não acredita, mas deve sua vida a mim. A mim, somente!
- Papai poderia dizer a mesma coisa. – Levantou-se, foi ao banheiro mijar. A porta aberta, escancarada, arregaçando aos olhos de Magda a repugnância que a atormentara.
- Não vai dizer nada? – esguichou entre os dentes debochados.
- Ah! Faça o que quiser!
Desgrudou-se do vidro e se sentou na beirada da cama arquejante. Os lençóis manchados pelo suor grosso de Romeu. No canto, Renato Machado encenava as seriedades jocosas da quinta-feira recém-sepultada. “Cadê o jornal da Globo?”, pensou ela.
Romeu gritou ao ver no espelho o controle apontando à TV.
- Deixe aí. Quero ver as novidades.
- O que esperar dum imbecil que leva a sério os números de picadeiros dos grandes engravatados!
Desligou. Romeu, sem lavar as mãos -notou bem Magda- aproximou-se.
- Porco filho da puta! Nem teve a capacidade de tirar a imundície do seu pinto!
- Não vou perder a paciência hoje, justamente hoje. – Romeu lhe tomou o controle e a luz artificial feriu de novo as brancas paredes do quarto. Agora era Renata Vasconcellos quem tagarelava.
Chegara a redenção. Ele, que a esperara anos e anos, a via perto, apalpava-a. Com Romeu se encerraria o fado dos Avelar, estirpe repulsiva, pusilânime. Entretanto reivindicava agora o poder de espernear.
- Duvido que consiga.
- Você perdeu o direito de ter dúvidas sobre mim. Um braço amputado, apodrecido, deixei de servi-la.
- Sobra-me outro. Além do mais, desligado não há o que você fazer.
O grau de influência de Magda sobre aquele ser esgrouviado, sem se escanhoar, acabara, acreditava ela. Quando a possessão se encerra, relacionamentos fogem, correm ao vento. Amor, palavrinha idiota. Amar, sabia bem Romeu, imanava-se na falsa modéstia e no acolhimento terno e infantil dum umbigo empurrado para dentro.
- Há outra pessoa. Há alguém. Diga-me – debateu-se Magda em cima do ranço úmido encastoado por Romeu no seu lado da cama.
- Sempre assim! Não há ninguém, simplesmente.
Falava a verdade Romeu. Queria apenas propugnar por um espírito que não era mais dele. Estranhava-se com a afasia da pseudoliberdade na era pós-Magda. Magda era sua mãe, antes de ser Magda. “Difícil abandonar família.” Altiva, decidida, firme, sempre fora Magda, exceto num curto espaço após o estupro. Naqueles tempos deixara de ser Magda. Soltara-se na afluência de outra de dominação pior que a dela. Entretanto, havia mais de um ano que Magda voltara. Estranhava-se, extasiava-se Romeu.
- É a vez de minha Síndrome de Estocolmo acabar.
- Não foi a você que fizeram gozar, seu idiota.
- Gozar, gozar! Quem disse a você que num casamento o gozo importa!– Romeu abotoava o paletó velho, porém digno, bem limpo e passado. Os pés inchados pela gota o incomodavam.
– Sentiu dó do marginalzinho, diga. Queria colocá-lo no colo, dar-lhe de mamar. Tem a chance agora.
- Faz tanto tempo! Por que repisa?
- Guardei para a hora oportuna, Magda. Gente é assim: suja e vingativa. Não por maldade, mas conveniência. Convém a mim escarrar-lhe na cara agora. Somente agora.
Encastoar as unhas naquele pescoço de galo despenado pouco resolveria. Como atacar um muro, um travesseiro ou outra coisa inanimada. Romeu soltara-se dela. Quando se soltara, levara também toda e qualquer oportunidade de reverberação. Magda se contorcia por Romeu ter lhe escapado. Um filho que se acha maior de idade e reivindica direitos.
- Direito não tem. Tem deveres. E muitos, seu crápula!
- Crápula! Eu?! Pare de me manchar com epítetos vergonhosos.
- Epítetos! Deu para falar bonito?! Só vejo estas coisas em livros. As pessoas escrevem porque são impossíveis de viver.
- Talvez.
Magda levantou-se e zanzou pelo quarto. Nos cantos mal asseados estavam pentelhos de Romeu. Pentelhos dum símio passado do tempo e que por isto se achou homem. Pentelhos de alguém que tem pentelhos, e tão apenas eles. Romeu observava os prédios da cidade enevoada na manhã fria e indiferente. Suas malas jaziam ao lado da cama. Três grandes valises com porcarias dum estúpido cotidiano imundo.
-Tchau. Depois a gente conversa. Estou atrasado.
Três grandes valises debruçadas num azulejo esmaecendo.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

Cheiro de mel da mãe

Escrevi esta pequenina crônica faz um tempão. Nem sei quanto. Tem bastante pretensão nela, coisa que me deixa bem envergonhado. Resolvi postá-la porque me faz lembrar uma fase gostosa da infância, iguais às pitangas para o grande Guga
Não havia lido nesta época João do Rio, antes que alguém ache que não tinha capacidade para pensar um mote. Na verdade, acho mesmo que faltou bem esta capacidade, lendo-a agora. Como disse faz tempo para cacete.


Sempre há dias em que a tristeza parece maior do que antes. Sempre há gestos superestimando a agonia presa na cabeça. Sempre há razões mais fortes que são muito mais fracas. 
O dia estava claro como o sol de uma tarde de verão. Respirava-se pelos cantos o gosto suado do sal de beira de praia. Ele caminhava sem a cabeça. Tinha-a esquecido em algum lugar. Fazia horas que andava sob aquele sol de fritar ovos no asfalto. Estava descalço também, os pés começavam a formar bolhas imensas. Não sentia, porém, dor. Há muito tempo tinha se esquecido o que era dor. Não por ser feliz.
Era igual a qualquer um que flanava naquela tarde, exceto por não ter cabeça e estar com as imensas bolhas nos pés. Começavam a vazar. Escorria e deixava rastros. Encostou-se na passarela da praça. Via embaixo a água verde empoçada. Não enchiam o lago fazia anos. A água era da chuva. Lodo dentro das poças. 
O pólen solto pelas margaridas pintava o ar de amarelo e deixava um cheiro de mel em suspensão. Quando pequeno sua mãe fazia-lhe pão com mel. Na cozinha, azulejos brancos e pequenos. Dona Maria passava o dia asseando-os. Uma velha geladeira vermelha com a água mais gostosa e gelada que tomara. Sobre a mesa com um encarnado roto, o radinho preto e cinza, sintonizado na Ave-Maria. 
Senhor sem cabeça tem agora aparelho de som ultrapotente e carro zero na garagem. Em seu quarto, computador, fedor de fio queimado. Não há abelhas. 

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Três dedos

Quantos cigarros mais, amassados neste cinzeiro imundo, vão vê-la dançar como se eu nem estivesse aqui, soltando os braços, tocando o corpo, amarfanhando os cabelos, lambendo a bunda? Bunda! Olhos verdes ululantes brilham no reflexo dos postes. Mostra-se essencialmente alheia, como se tudo fosse nada. Seus olhos. Ah, seus olhos! Perfeitos! Grandes, grandes lábios. Lascivos! Dentes simétricos. Seguram sempre gotas de saliva que rematam as frases dum jeito singular.
Enfim volta-se, mas ignora quem estica os pés no colchão de molas surradas. Há pouco declarou praticamente um sentimento fraternal. Eu, minhas lucubrações ridículas.
- Será que podemos conversar de forma séria?
Mutismo, eis a resposta. Talvez não tenha escutado. Difícil fugir de questões diretas. Brinca de ignorar mancebos punheteiros como eu; menos as palavras.
- Preciso falar-lhe – berro.
Para no meio dum giro, chega e se senta a meu lado. Toca-me a mão, a outra escorre em minha barba. Os olhos aumentam, tomam-lhe o rosto inteiro.
- Não basta apenas nos bastarmos?
Se nos bastássemos, bastaria, contudo não quis dizer isto. Aliás, poucas vezes quis dizer alguma coisa. E nestas achei que a escutava.
- Outra época sim. Mas neste momento não imagina que autocomiseração! É estúpido, démodé. Mas forte e plangente.
E eu novamente tentando adornar coisas simples dum colorido pardacento. Ela se levanta, afasta-se, sorri e me encara. Sinto-me enregelado. Volta dois passos. Abaixa-se a minha boca, mas sobe e toca a sua em meu nariz.
- Simples. Você e eu, cada um no seu espaço. E este espaço não é único.
- Precisamente isto não quero.
- Escolhas, escolhas.
- Não escolhi.
Cenazinha pueril, babaca. Percebo um babaca intermitente perto dela. Sua cabeça etérea assusta. Tem uma capacidade hiante para trocar pessoas e enrolá-las nos seus novelos imberbes. Ela gruda efemeridade em tudo. Nunca sussurrou algo menos espasmódico que de costume. Até nossas conversas acontecem uma vez ou menos por ano, e cada vez com menos frequência.
- Estranho. Como se nunca tivéssemos ficado tanto tempo sem nos ver.
- Natural.
Chega à janela e se esparrama no parapeito. Empina a bunda. A luz do poste escorrega em suas costas e salienta-lhe o quadril. Coxas apagadas; adejam, porém, nos buracos do reboco caído.
Acendo outro cigarro. Ela vê, faz beicinho com o canto da boca. Ridículo! Ridículo e lascivo.
- Estranho recriminar algo que pouco tem a ver.
- Tem muito. Estou aqui.
Sacoleja as pernas vagarosamente. Agacha-se, derramando nos meus joelhos os antebraços morenos respingados pelos pelos loiros.
- Você estaria disposto?
- Disposto a quê?
- Deixe de fingir.
- Complicados os arranjos.
- Sim – empurra-me as pernas, arqueia-se e fita-me os olhos. – Este falso moralismo, estas falsas convicções. Seu cristianismo doentio, cínico, carregado de paroxismo.
- Bem sabe que estou longe dum cristão.
- Pior. Faz tudo deliberadamente.
Agora firma ela os traços no espelho puído da cômoda rota. Este quarto está entre nós desde que as ruas nos sumiram; a incomoda o sentimento cristão, hipócrita, meu. Palavrório idiota; nós dois, certos e errados. Fico de pé e roço-lhe as pontas aneladas dos cabelos. Ela recua.
- Não precisa disto.
- Pode ser que precise mais do que imagina.
- Pare de ser débil mental.
Na rua, dois velhos andam com grande dificuldade. Dão a impressão de se resignarem com o fado. Andar, andar, andar. Se tivesse uma pedra, acertar-lhes-ia a cabeça.
- Pode andar o quanto quiser. Vou sempre estar no seu encalço.
- Frase de filme? Já foi mais original.
- Culpa sua. Você me faz parecer otário.
- Cai sua poesia ébria e a culpa é minha!?
Verdade. A culpa é dela. A barriga cresce e dói; ela me desarranja o intestino. Seus olhos verdes ganem minhas pseudofaculdades. Vagabunda poesia, parasitárias ideologias sentimentais. O quarto está mais escuro?
Levo os dedos a sua boceta. Prende minha mão e a aperta. Pinta-lhe um ricto amável na face.
- Lerdinho. Era mais rápido. Podia me fazer capitular antes mesmo que esboçasse alguma reação.
- Sempre negou.
- Neguei nada.
- Melhor: se trancafiava numa afasia escancarada.
- Esperava, me descortinava nas reticências.
- Palavras têm de ser ditas.
- Nem sempre.
É-me impossível dar um passo com ela sem claudicar.
- Creio que esteja na hora de ir.
- Você e seus relógios. Seus relógios!
De novo cospe a mim suas fleumáticas e doces circunferências verdejantes enormes. Só há elas.
- Vá. Já deve estar chamando você.
- Ela poderia viver calada e você diria a mesma coisa.
- Você é sempre a mesma criança idiota.
Recolho a blusa de lã. Estendo-lhe chave e dinheiro.
- Não precisa. Ver você vale o prejuízo.
Travo seu rosto em minhas mãos. Insinuo o pescoço para frente. Faltam só três dedos.