Senti, hoje, falta para caralho de Syd Barrett. Corri ao computador e fiz uma playlist com os dois álbuns solos do cara. Enquanto Baby Lemonade queimava naquela voz gutural - às vezes, esgarçarda - deitei na cama, me enrolei no edredom e contorci os pés. Barrett nasceu em Cambridge, em 1946, e morreu aos 60 anos. Sua arte entrou numa fase legal da minha vida. Poderia estar ouvindo agora porcarias new metal, trash, hardcore. Mas não. Foi-me apresentado na faculdade por um colega que considero bastante, apesar de ele não nutrir o mesmo sentimento por mim. E com muita razão. Fui filho da puta com ele.Não diretamente Barrett chegou aos meus ouvidos, mas o som de Wish you were here e Dark side of the moon, duas homenagens a ele descaradas. Porra! Que paulada na cabeça! Totalmente diferente das merdas que ouvia (Guns, Red Hot e afins).
Comecei a fuçar. Fuçando, fuçando, encontrei The piper at the gates of dawn. Se da primeira vez dissera “porra”, fiquei, agora, boquiaberto, a baba escorrendo. Nunca tinha escutado algo tão intenso, nostálgico, delicado, alegre, energizante, chapado, depressivo, difícil - resumindo, uma infinidade de paradoxos. Barrett deixou o Pink Floyd após o estouro do primeiro álbum. Na verdade, o grupo já havia começado a gravar o segundo e alguns singles. Entretanto o guitarrista e principal vocalista da banda estava mais antenado aos porres de ácido. Quem quiser saber mais, há bastante coisa aqui (todo mundo desce a lenha na Wikipédia - pelos menos, em relação a Syd, é um site crível em português) .
Ele disse em uma entrevista, após ter lançado o segundo álbum solo, que sempre quisera que os jovens tivessem diversão. Entretanto seu cérebro era uma caixa incompreensível e coerente. Não ficava feliz com o que fazia. Praticamente autista, tinha problemas em construir amizades.
Outra porrada na cara, Brian Wilson. Com sua surf music, agitava as baladinhas na década de 60. Foi a resposta à altura que os Estados Unidos deram ao rock inglês, principalmente aos Beatles. E ponha emulação nisto! Um mestre, o chapado e doente mental Wilson. Sua vida e música (apesar de não tão intensa quanto a de Barret) mostravam-se discrepâncias puras. O cara era fora dos padrões. Num natal deu de presente a dois filhos seringas carregadas de heroína. Agora está mais comportadinho.
Quando me pego ouvindo The Gnome, dos Floyd, ou Good vibrations, dos Beach Boys, faço uma pergunta estúpida e recalcitrante: “Os caras que compuseram estas músicas eram realmente fodas: como posso ter a pretensão de achar entender o que dizem?” Transmutavam a angústia dos movimentos complexos de seus cérebros, ao mesmo tempo em que a envolvia numa letargia doce. Quem não se rende a Bike, para mim uma das mais belas canções de amor?
Se o máximo outorgado a nós, brasileiros, é cultuar Renato Russo, Humberto Gessinger, Lobão e Cazuza, estamos mesmo fodidos.
PS. Trecho da letra de Bike que explica por que a considero perfeita:
I've got a bike
You can ride it if you like
It's got a basket
A bell that rings and
Things to make it look good
I'd give it to you if I could
But I borrowed it
You're the kind of girl that fits in with my world
I'll give you anything, everything if you want things

