Brinco de estalar os dedos enquanto na TV jorram, incansavelmente, cenas de Santa Catarina. Depoimentos angustiados, aterrorizantes, entopem o entardecer. Nuvens alaranjadas adornam o céu aqui. Dá para ver o desenho negro dos pássaros através de minha janela.
Fleumático, acompanhei o drama catarinense. Minhas pernas tremem apenas quando penso que a desgraça está a poucos passos do meu amor.
Blasfema, entretanto, quem grita “egoísta, filho da puta” a mim. Talvez. Pessoas morreram, muitas por sinal. Há nada o que fazer, menos enterrá-las! Dos que restam, milhares viram naufragar suas casas, geladeiras, fogões, estantes, televisões. Somem na inanição, inação passada. Raspam o fundo da panela, cúpidos para que a borra de arroz se solte. Minha mãe começou a fazer o jantar. “Que fome!”
Nestas horas o sentimento cristão de caridade é bem-vindo, apesar de detestar Jesus. Jesus não. Era apenas um lunático que teve consciência de seu besteirol quando correu os olhos e se viu pregado: “Pai, por que me abandonaste?” Tenho tanta pena dele quanto do retardado que meteu bala em John Lennon -perda significativa. O uso reptiliano dos “ensinamentos” (inócuos como os de um professor primário municipal) de Cristo fodeu a visão humana, porém. Mesmo que as conquistas sejam razoáveis, o objetivo continua tosco, apagado, carcomido.
Simples o problema: catarinenses precisam de ajuda? Devemos auxiliá-los. É uma prova de que a avalanche não esmagou nossas cabeças, e, sim, as deles. Socorremos inflados pela certeza de que saímos incólumes, orgulho metamorfoseado em compaixão -que conceito mais finório!
As bandeiras tremulam em mãos escorregadias e empanadas. Grita um mudo, ninguém se dá conta. Mas aponta para uma coisa tão saliente quanto a barriga de grávida. Só idiotas analisam outras hipóteses. Gases, quem sabe? Empresas, entidades e igrejas unidas -ao mesmo tempo, renhidas- num alvo: pôr a carinha deslavada de bom moço.
Gostei da declaração de Bento XVI. Disse -de seu suntuoso palácio lapidado a ouro, coberto de adornos e penduricalhos, cadeiras almofadadas enormes- estar “espiritualmente presente” e partilhar do sofrimento do povo de Santa Catarina.
Sou papa! Acordei hoje abosorto com a sorte do pastor no deserto acachapante -certas vezes apenas pensamos, desconexos de linearidade. O sol torra sua pele, a encarquilha. Racha seu rosto como o arado estupra a terra. Nariz, orelhas e lábios, se tivessem sido jogados na chapa, não pareceriam tanto carnes esturricadas! Infeliz pastor! Vou desligar o ar condicionado, esfriou demais. Pronto: agora está bem melhor! Sou papa!
Cessa a chuva. Cidades se erguem nos restos tortos de prédios e residências. E as faíscas jamais pisam a soleira. Por que tantas construções entrecortando morros? Por que tanto lixo entupindo o curso dos rios? Por que tanta cidade sem planejamento algum? Depois, ainda são eleitos heróis! Anos passam, e a água carrega tudo de novo.
Obs.: um dia após ter escrito este artigo, fiz uma catarse no meu atulhado guarda-roupa. Coisas velhas, nem existiam mais. Minha consciência está tranqüila. Há mais espaço para meu terno novo.
Notas de "A Puta" por Edson Coelho
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"Sim. Foi isso. Eu vi a vértebra de Deus. O pôr do sol
penetrando entre os discos da sua coluna. A hérnia saltou e pulsou dentro
da minha v...
Há 10 anos

