domingo, janeiro 25, 2009

Conto de ninar

“As minhas mãos. Ah, minhas mãos! Esquadrejadas com simetria e esmero. Fortes e delicadas. Algumas veias saltam formando um cordão negro que se estende ao antebraço; rijos e suaves músculos. Tanta potência desperdiçada! Coitadas! Minhas mãos se estampam virtualmente. ‘Três adolescentes matam idoso de 75 anos. Segundo a polícia, o homem praticava sexo frequentemente com os garotos. ’ O resto da notícia é uma bosta. Horrivelmente escrita. Foda-se! A idiotice é que mataram o velho porque ele não chupou o pinto com bicheiras de um menino. Estúpidos, defenestrá-lo só porque o pederasta desgraçado não quis descolar a dentadura! As mortes são ultrajantes. Sempre foram. Até os psicopatas, ensopados num sentimento poético, carecem de significado. Morrer não. Sempre pensei em matar alguém. Não pela morte, mas pela sua gradual transformação em não ser. As angústias que a antecedem. Ali sim a morte deve dizer alguma coisa.”
Já nem me lembrava mais daquelas anotações no canto de uma rota agenda marrom com números de telefone, jogada no canto da estante. Tinha 30 anos. Pouca coisa mudara até 15 minutos atrás. Continuei no meu emprego ridículo, ganhando um salário nem sequer ridículo. Acordava todas as manhãs, vestia um terno cheio de vinco, ligava minha BMW, dirigia à Perdizes e tomava café na padaria a uma quadra do escritório. Desde 15 minutos minha rotina se alterou. Não que algo tenha acontecido. Vai acontecer. Um amigo disse certa vez que achava a profissão de guarda noturno a mais estúpida. Sempre se cuida de algo que não é seu, não se pode dormir e se tem como companhia apenas um radinho à pilha. Todas as profissões são retardadas. Sempre se trabalha para o outro, mesmo quando se é dono – há os clientes. Não estou com vontade de monólogos sobre emprego, trabalho ou coisa que os valha. Vou sair. Quatro e quarenta.
A rua está escura. Alguns meninos me ajudaram com o vandalismo. Lá está ele. Ele, indistintamente. Claudica. Parece que tem uma perna maior.
A sensação foi deveras ruim. Chorou, implorou, depois ficou inerme, inerte àquela coisa. Olhava-me por detrás dos próprios ombros. Como se houvesse clichês verdadeiros, o mais mentiroso é: “Difícil é matar o primeiro.” Que dificuldade? Estava eufórico, é verdade, mas não menos que ao ver uma corrida de Fórmula 1 no autódromo. Acho até que exagerei. Cinco tiros, para quê? Morreu mais rápido e não matou minha vontade. Nem deu tempo para perguntar o que estava sentindo. Caiu na calçada toda fodida pelas raízes daquelas árvores coloridas. Ah, as árvores! Logo depois que o débil mental estrebuchara uma folha se desprendeu e pousou em seu saco. As gotas de orvalho reverberavam roxos e brancos, beijavam o falo -um beijo de amor! Foi só! Meus olhos fitavam-nas encantados. As minhas belas mãos, entretanto, haviam retornado ao largo bolso de minha calça preta de linho italiano.
Agora estou eu sentado em meu confortável canapé. Foi só! Mas não pode ser só isto. Não. As coisas devem rolar mais lentamente. Revolver é complicado. Com ele se perde o tino. Por que motivo dar cinco tiros no desgraçado? Sai de controle. Mais tarde resolvo isto. Hora de nanar.
Na Sacramentana havia coisas legais. Comprei uma que se parece com a do Rambo. Apinhada de apetrechos: bússola, anzóis, linha. A porra é um kit primitivo de sobrevivência. Já sobrevivo bem.
- Vamos tomar uma gelada depois do trampo?
- Sei lá. Não estou muito a fim. Quero dar uma relaxada, chegar em casa e dormir.
- Largue de ser veadinho.
Cuidado com a semântica, filho da puta. Mas é meu amigo. Além do mais, Maurício leva uma vida tão fodida que se o matasse estaria libertando-o.
- Vamos, então.
Toda a nulidade do trabalho se expressa na merda dos ponteiros do relógio. Eles rodam como o cachorro caça seu rabo cheio de moscas. Se se levanta, vai ao café, ao banheiro, volta e se senta novamente em frente ao computador e os olha, percebe-se que os malditos deram aquela coçada de saco. Esperam o retorno para continuar em espasmos lassos. Já havia flanado pelo escritório muitas vezes hoje. Como se, assim que me livrasse, fosse correr e acalentar a cabeça no colo de Magda. Ah, Magda, como a amo!
- Vocês se casam quando?
Não sabe se toma o chope ou se conversa. Impossíveis são as duas coisas juntas, imbecil.
- Tudo depende. Estou tentando ajuntar grana.
- Ajuntar grana? – Engasga-se com o chinite. – Porra, você tem um carro da hora, um apartamento filé, ganha dinheiro para caralho! O que mais espera?
- Comer a sua mulher.
- Vou enfiar o dedo no cu da sua, seu retardado.
Não foi uma ideia ruim. Caroline tem um rabo grande. Se a fodesse Maurício ficaria louco. Não falta muito, na verdade. Desde que descobriu que seu pai come a faxineira se emputeceu. O velho foi foda também. Comer a faxineira!
- Poderíamos sair qualquer dia desses.
- E como é o nome disso que estamos fazendo?
- Não assim. Magda e você, Caroline e eu. Os quatro juntos. Entendeu agora?
- Hum. Como queira.
Chegaram há uns vinte minutos. Belas. Uma me encara, olha-me sem ao menos disfarçar. Tem os cabelos longos, excessivamente negros -milagres da Wella. O decote se encerra em seus seios de maçã. Gosto de peitos pequenos. Olhos tisnados e firmes, pele alva.
- Vou mijar.
Tem plena convicção de que vá trepar com o estranho do boteco.
As pessoas vendem seus produtos desconfiadas. Desconheço lugar em que, entre o banheiro e a saída, não esteja o caixa. O comércio foi construído por intrujões. Sagrada burguesia! Ardilosa, compara-nos a ela. Este idiota que me sorri atrás da registradora mata o tempo em suspeições. “Aquela está com caganeira, pelo tanto que demorou. O senhor de bigode tem problemas na próstata, só um minuto lá dentro. A riquinha com cara de puta está com os rins fodidos, vai toda hora.” Retribuo a gentileza. Que bosta! Este lugar está se esboroando. Duvido nada se foi o Niemayer que o desenhou.
- Por que me fez sinais?
- Foi tão descarado assim?
- Muito. Por quê?
- Que tal a gente deixar este povo?
- Suas amigas vão ficar chateadas.
- Não. Disse que só viria tomar um copo de cerveja. Tinha de ir a Londrina.
- Elas sabem de mim?
- Não.
- Certeza?
- Claro.
- Está bem. Onde a espero?
- No estacionamento da Matriz. Vou deixar meu carro em casa. Daqui a 30 minutos lá, pode ser?
- Sem problemas. Muito prazer, Ronaldo.
- Prazer, Alessandra.
Podem cacetar minhas mãos, a filha da puta tem um avançado falso bom gosto. Usa Carolina Herrera, Forum, Opananken. É daquelas riquinhas vagabundas, doidas para darem a quem tem mais dinheiro que elas. Trabalhar de Armani impressiona.
- Estou vazando.
- Ué, vai aonde?
- Para casa.
- Não dá tempo nem para a saideira?
- Não. Está tudo certo, já paguei o coelhinho branco de óculos.
- Coelhinho branco de óculos é foda. – De novo a garganta de Maurício apanha com o catarro vindo de seus pulmões destroçados pelo cigarro. Não sei se ri ou se pede ajuda. Vou embora antes que descubra.
Gosto deveras de Arapongas. Cidade próspera para viver quando se é pseudoesperto, mais ou menos 0,15% de seus 100 mil habitantes. Do Paço Municipal àquela “magnífica Casa de Leis”, só idiotas assumidos. E em muitos outros: fóruns, indústrias, lojas, a estupidez grassa. Quando se vai procurar emprego, a primeira pergunta que devem fazer é: “- Articule uma frase simples, sujeito, verbo, predicado.” E o retardado morto de fome: “- Amarelo, azul, rosa, casa, comida, lasanha.” “- Contratado.” As chaminés, arqueadas pela fumaça tóxica cuspida sem discrição, injetam câncer nos cérebros. Nada de surpresa -um burro só consegue dominar um jumento, para me restringir a animais.
- Demorei?
- Não mais que minha paciência suporta. O que está com vontade de fazer?
- Sei lá, a gente pode ir a um restaurante legal.
- Evito lugares em que a chance de encontrar conhecidos seja grande.
- Entendo. Vamos a um terreno neutro. Nem meu nem seu.
É um lugar estranho para caralho em Maringá. Nunca andei nestes cantos. Ela, menos. Sente-se o ranço do restaurante da calçada.
- Não há como ficar aqui. Há motéis com pratos maravilhosos. O que acha?
- Aceito.
Como tudo mudou! O quarto é cheiroso; a banheira, grande e luzidia. Espelhos espalhados em todo canto refletem a beleza de minhas mãos, do meu rosto branco com a barba a fazer, dos meus pés meticulosamente desenhados. Sou uma imensidão.
- Vou tomar um banho. Escolha algo para a gente comer.
- Pode deixar. Já vou.
Macarrão ao fungi, escolheu legal. Minha fome é muita. Ela, entretanto, já está com a boca no pau -e a merda do macarrão esfriando. Passa a língua na glande, desliza ao saco e acaricia as bolas. Sobe de novo, coloca meu caralho inteiro na boca. Esforço e vejo apenas as melenas esparramadas, tingindo meu abdome. De vez em quando risca-me o pau com dentes afilados. Mexe-se bem. É boa de trepada.
- Preciso ir ao carro buscar cigarros.
- Vou encher a banheira.
- Ótimo.
Uma da manhã. Nas sinalizações refletivas a estrada eremita surge, impondo sua cor negra, empoada.
- Vamos parar o carro. Ainda estou com tesão.
- Está bem, mas veja onde. Minha sandália não pode atolar.
- Fique tranquila.
Embaixo de um pé de abacate manteiga meto outra vez. Enquanto ela se agacha para mijar -quando querem dar, as mulheres quebram todos os pseudopadrões de dignidade- vou ao carro. Encosto o gume enregelado no pescoço. Ela tenta articular palavras, mas saem muxoxos.
- Calma. Não tenho nenhum sentimento mau em relação a você. Fique tranquila.
- Ti... ti... tire esta..... pesc...
Aperto-a ainda mais para marcá-la. Está sofrendo, vê o novelo de merda ao qual chama vida ameaçando se desenrolar. Beijo sua boca. Que tom glacial! Que falta de humor!
- Você é muito legal, gosto de você, de verdade.
Já nem consegue balbuciar. Quem teve um pano enfiado na goela e uma fita enlaçando o rosto sabe o que digo. Tenho de lhe separar as pernas. Claro, não amputá-las. Que horror!
Demorou, mas terminei. Atei seus pés ao tronco da árvore afastados. A calcinha ainda cheira a pinto. Na ponta da faca, rasgo-a com asco.
- Huuu...
- Relaxe, eu já tiro esta merda de sua boca. Só mais uns minutos.
Beijo a lâmina, que reflete a luz da lua. Volto meus olhos e a vejo ocupando mais da metade do céu reservado a mim. A lua se atreveu a assistir, afugentou as nuvens negras, que dançam agora ao redor. Espigas de milho estalam com o roçar discreto e altivo da madrugada. Alessandra observa-me como um ponto de interrogação na última questão da última prova do ano. Sabe ela que aqui faltam exames.
Passo a faca em seu clitóris. Desço a cabeça e enfio a língua. A lâmina escorrega a seu cu, que se retrai. Como isto tira a paciência de qualquer homem! Enfio a ponta e giro. Não fecha mais. Tanto suor, para quê? Energia vã. É-se tão idiota assim? Pouco pode fazer, resigne-se então, caralho. Retraio a faca alguns milímetros. Escorrego-a acima, atravesso o períneo forçando-a para baixo e atinjo a boceta. Uma ponte! Suja de sangue, mas uma ponte. Cacete, há sangue para caramba. Retiro sua mordaça.
- O que sente, linda Alessandra?
- Seu desgraç...
- Não me xingue. Quero saber apenas o que sente, vê já sua morte?
- Dói.
- Sua dor é tão real assim? Não está imaginando o paroxismo que falta advir?
- Min...
Beijo-a. Só um fleumático a deixaria ali, crua, sem afago nos cabelos. Encosto a cabeça em meu ombro. Suja o paletó, mas tudo bem. Melhor o paletó que a camisa -há outro no carro. Desvanece. Tenho de acordá-la. Dizem que no umbigo dói para caralho.
- Ai.
Refestelo-me a seu lado. Duas horas.
- Vou ficar aqui. Acho tão triste as pessoas morrerem na solidão. Diga para mim o que sente, o que pensa, o que vê.
- A... a...
Três e meia, as órbitas param. Preciso descrever as contrações dos músculos de sua face, as reações espontâneas -não abriu a boca decentemente. Ah, minhas mãos!

5 comentários:

Camila disse...

Eu já pensei em matar hahaha tem tantas horas que dá vontade, tantas situações, tantos modos de imaginar como a gente pode matar. Interessante.
Voltei do Rio hahahaha

**** disse...

Coisas como esta ninguém confessa, querida Camila. As pessoas sentem um certo pudor moral. Mas você tem coragem. Foi boa sua viagem ao Rio? Bom ter você aqui.
Abraços

Mongo disse...

Às vezes, me pergunto se é ficção (provávelmente) ou se é real...

mas não importa...

o que importa é que seus posts são legais...

abs!!

**** disse...

Não tenho uma BMW, Mongo. Respondi sua pergunta?
Abraços, garoto!

Mongo disse...

uahauhauhaua, sim...

mas vai saber?!?!?!

xD

falou cara!!!

abraço!!!