quinta-feira, janeiro 15, 2009

Olhos

Olho seus olhos. Seus suaves olhos de amêndoa. Faz mais de cinco minutos, os encaro com complacência e resignação. Ela também me olha. Estamos presos no fundo dos olhos um do outro. Pouco menos de quatro anos atrás, esta cena seria insólita, prosaica até. Agora, não.
Chegou de uma família estranha. Abri minha casa, dispus minhas calças e camisas comprimidas umas nas outras para que sobrasse espaço às dela em meu guarda-roupa. Mas o deixa vazio. Quem sabe pense que é errado? Nada contra mim, mas contra minhas pseudoposses. Tento fazê-la se sentir como se estivesse em sua casa. Porém abre mão disto. De minhas coisas, não desdenha. Só que para por aí. Também sou assim nada casa dela. Por que a recriminar, então? Bastam-me as pintas morenas manchando seu lânguido braço transparente. Duas pintas grandes. Passo o dedo em derredor. Arranco-as com olhos famélicos, guardo-as. São minhas, apenas minhas.
A cada dois meses nos vemos. Já se passaram dois anos deste jeito. Na véspera de se mudar, eu a olhava e ela me olhava, enquanto, sentados, escolhíamos que tipo de coisa monstrenga e gordurosa comeríamos para matar o silêncio. Um melão inteiro havia enroscado na minha garganta. Enquanto a tinha escondido em meu capuz, o amor se revelara simples, fácil. Era minha extensão nela, como se me visse no espelho. Mas não naquela noite. Noutro dia cedinho, ela iria. Encarava-a como um braço meu que havia sido decepado e posto na cadeira em frente por um cirurgião de mau gosto.
- Anne* procurava os momentos perfeitos.
- O quê?
- Anne procurava os momentos perfeitos.
- Até que começou a ter de se suportar desde o amanhecer.
- Não posso melhorar isto.
- Por favor, nada vai mudar. Nada vai mudar – começou a tamborilar, com o cabo da faca, na mesa.
Moraria a 509 quilômetros e tudo continuaria igual? Disse mais a ela que a mim. Ficava repetindo: "Nada vai mudar, nada vai mudar."
Eu olhava, sem reconhecer, a pessoa que havia chamado até horas atrás de “Amor”. Se fosse meu “Amor”, estaria sempre ali, do meu lado. Mas tinha de ir.
- Estou com falta de ar. Tenho de fumar.
- Como assim? Com falta de ar e quer acender um cigarro?
- Se fosse um baseado, você me espancaria. Então vai cigarro mesmo. Já volto.
Saí para vê-la de longe. Observar seus trejeitos, a maneira sôfrega com que tocava os cabelos, os entrelaçamentos epiléticos dos dedos. As sobrancelhas, finas e rigorosamente simétricas, deviam ter sido desenhadas à tarde com muito cuidado. As bochechas encarnadas pelo vento gélido do Outono. Distraía-se para não pensar. Lia no guardanapo a marca de porcarias rápidas entregues em casa. Os olhos, porém, mantinham-se fundos, carregados de uma letargia mole, tépida, pesada. A mulher que um dia vi caminhando, a balançar os lascivos seios, não poderia ser a mesma prostrada na cadeira a poucos metros. Minha metempsicose cessara.
Não foi uma noite fácil aquela. Mas, engraçado, foi a vez que mais me esforcei para lhe dar prazer. Concorreria com a distância, precisava, então, amarrá-la de alguma forma. E meu amor estampara falta de força para tanto. Se tivesse, ela não iria.
Está ela agora, na minha frente, a subverter conceitos que acreditei construir com argumentos filosóficos de concreto. Olha-me. Eu a olho. Olho seus braços, olho seus olhos. Depois de dois anos, descobri que consigo me amar mesmo estando longe de mim. Não é fácil, entretanto. Nem um pouco fácil.
- Por que me olha assim?
- Não entendo por que Dickens** matou Dora.
- Se ela continuasse viva, o que seria de Inês?
- Ah, Dora é tão infinitamente superior!
- Ele descordava.
- Pobre coitado! - Prendo os dedos nas mechas encaracoladas de seus cabelos castanho-claros. - Você é minha mulher criança.
- Não sou tão inocente quanto Dora. Nem tão arteira. E, por favor, pare de me comparar a uma defunta – diz, sorrindo. Os dois dentes da frente são grandes e separados. À medida que a semicircunferência se expande, a arcada apequena-se de forma drástica. Os caninos parecem de criança. Adoro-os todos. E tanto!
- Você não é como Dora. Dora é como você.
- Já pensou que estivesse enganado? - encara-me com o sobrecenho empertigado. Puxa minha cabeça para seu colo e a enlaça com os braços. - Não pode tirar nada de mim que não tenha posto.

* Personagem do romance “A náusea”, de Jean-Paul Sartre
** Charles Dickens, escritor inglês. O livro citado se chama David Copperfield.
Observação:Este conto surgiu a partir de um relato de viagem do Mongo (http://thiagomongo.blogspot.com). Percebi que tínhamos histórias parecidas e me veio à mente fazer uma ficção sobre isto.

4 comentários:

Mongo disse...

Nossa cara.. Nuito bom esse post...

Me vi muito nele... Algumas coisas dessa ficção (real), foi o que eu vivi com ela...
Só que fazem só 4 meses que estamos juntos...
Pareçe que essa história é minha, pareçe que alguém estava lá comigo, viu tudo e criou essa história...

Muito bom esse post...

Vou mencioná-lo no meu próximo post!!!

Valeu cara!!!
Sucesso!!!

Dedezinha disse...

lindoo ameiii . seu post vim por recomendaçãoo do Meninãooo(Mongo)

E AMEI pode ter certeza que vou visita sempre... amei msmooo..

bjuss ate a proxima..

**** disse...

O Mongo é um rapaz muito gentil. Obrigado Dedé por sua visita.
Vou cobrar suas visitas aqui, hem?
Beijos

Cecília França disse...

Esplêndido.