segunda-feira, janeiro 12, 2009

Questões semânticas

Alemanha, 1940
- Levante, seu porco, filho da puta!
(Puxa o lençol com a ponta do rifle)
- Pare com isto. Não... não fiz nada.
(Recosta-se, acuado, no espaldar da cama)
- Claro que fez. Nasceu e infestou meu amado país e a Europa. Vocês são a escória. Cadê seus filhos?
- Deixem-nos em paz, por favor! São apenas crianças.
(O soldado anda em direção ao quarto dos moleques. O homem o segura pelos braços, tenta dissuadi-lo. Para o rosto no chão frio e seco do corredor cheirando à cera. Vê o reflexo opaco manchado de sangue. Dói muito)
- Esta prole mefítica não pode receber a abençoada designação de criança. São monstros, aberrações da natureza. O certo é acabar com todos vocês. Peste Negra! (cospe na careca debruçada a sua frente)
(O homem mexe a ponta áspera dos grossos dedos. Havia trabalhado durante 30 anos naquela pátria. Merecia muito mais que uma surra, um campo de concentração. Faltavam-lhe forças para reivindicar)
- Não há motivos para fazerem isto. Só queremos ajudá-los edificar esta grande nação. Somos irmãos...
(Pisa-lhe a garganta, mas sem matá-lo. Ratazanas daquele tamanho não se mata asfixiando. Revolve o pé)
- Cale a boca. Você e sua família, um monte de merda. Fedem! Vermes! Se tivessem forças nos aterrorizariam.
- Terroristas?! Nós?! Apenas procuramos viver, trabalhar honestamente.
- A semântica é definida por quem manda. Vocês são terroristas. Ponto final.
(Reagrupam o resto da família para assistir e participar daquela cena. Execução fleumática de cada um)

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Gaza, 2008
- Desculpe-me, senhora. A cabeça de seu filho estava na frente de nossos canhões. Não era nossa intenção.
- Assassinos! Meu bebê só tinha nove anos. Nove anos!
(Berra a mãe, que veste uma roupa surrada, tingida na terra estéril. O chão dá as costas a ela)
- Reitero meu pedido de desculpas (mantém as mãos presas ao quepe roçando sua cintura). Juro que não era nossa intenção. O problema são estes terroristas que brincam de jogar foguetes nas nossas cabeças. Vivemos como em um batalhão do Corpo de Bombeiros, do outro lado da fronteira. A toda hora toca a sirene.
(Cheio de trejeitos, o oficial tenta se mostrar convincente. A mãe brande o filho com miolos arrebentados)
- Terroristas?! Vocês nos expulsam de nossa terra. Controlam tudo. Controlam nossa comida, nosso remédio, nosso nascer do sol. Quem são os terroristas? Ao menos vocês possuem sirenes.
(Enquanto fala, balança freneticamente a cabeça. Marcas de expressão no rosto embaralham a idade. Aparenta bem mais que os 40 anos. Sessenta, talvez. Definitivamente não é influenciada pela fashion estadunidense)
- Minha senhora (a cara do oficial continua lisa, apesar dos tiques efeminados. Sem sulco, abaixo ou acima das sobrancelhas), está claro que há muitos terroristas aqui. É questão de número.
- Questão de número? (dá de ombros) Veja o que temos. (A mulher passa os olhos vazios nas ruínas dos pardieiros. Uma densa nuvem de areia dança, faz tempo, em caracol. O soldado não a perde momento algum). São só construções velhas, destroçadas por bombas. Imensidão de pessoas amontoadas numa colônia de férias do inferno.
- É. Não adianta (enche os pulmões e bafeja em um imenso ruído)! Não vamos concordar nunca. A senhora também é terrorista. É tão terrorista que nem merece morrer. Pesta Negra! Enterre este resto de carne. Vou deixá-la viva para se lembrar, a cada segundo, desta cabeça aberta, com o cérebro espedaçado. Quem sabe amanhã a ONU nos expulse, nos mande à África, à Groenlândia, e crie um Estado bonitinho a vocês! Mas, a semântica é definida por quem manda. Neste momento vocês são terroristas. Ponto final. Como dizem os charlatães: é impossível deslindar o amanhã.
(O esbelto jovem sai assobiando uma canção em homenagem a Javé. Pula e flexiona a perna direita atrás da esquerda. Some na nuvem de areia)

7 comentários:

Filosofia de gaveta disse...

Foi um prazer conhecer seu blog, moramos em cidades proximas, moro em S. Seb. Amoreira, tb norte do Pr. Vou colocar seu passar a seguir seu blog.

beijos

FILOSOFIA DE GAVETA

**** disse...

Obrigado pelo lisonjeiro comentário, minha querida. Foi um prazer conhecer você e seu blog.

Eduardo P.L disse...

Obrigado pela visita e comentario no QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO

Volte sempre!

Giovani Iemini disse...

amigón, seria educado ao menos ler algo do blog em que vc faz propaganda.

jugioli disse...

Gostei do seu blog, uma escrita densa, reflexiva...
obrigado pela visita.

bjs.

Lucy in the Sky with Diamounds disse...

Olá! Faço das palavras da "Filosofia de gaveta", as minhas. Foi um prazer em conhecer o seu blog e, gostaria de parabenizá-lo pelos textos!
Beijos

**** disse...

Caro, Giovanni!
Desculpe se o importunei. Não foi minha intenção.
Cordialmente,
Eduardo Alves