sexta-feira, setembro 04, 2009

Cheiro de mel da mãe

Escrevi esta pequenina crônica faz um tempão. Nem sei quanto. Tem bastante pretensão nela, coisa que me deixa bem envergonhado. Resolvi postá-la porque me faz lembrar uma fase gostosa da infância, iguais às pitangas para o grande Guga
Não havia lido nesta época João do Rio, antes que alguém ache que não tinha capacidade para pensar um mote. Na verdade, acho mesmo que faltou bem esta capacidade, lendo-a agora. Como disse faz tempo para cacete.


Sempre há dias em que a tristeza parece maior do que antes. Sempre há gestos superestimando a agonia presa na cabeça. Sempre há razões mais fortes que são muito mais fracas. 
O dia estava claro como o sol de uma tarde de verão. Respirava-se pelos cantos o gosto suado do sal de beira de praia. Ele caminhava sem a cabeça. Tinha-a esquecido em algum lugar. Fazia horas que andava sob aquele sol de fritar ovos no asfalto. Estava descalço também, os pés começavam a formar bolhas imensas. Não sentia, porém, dor. Há muito tempo tinha se esquecido o que era dor. Não por ser feliz.
Era igual a qualquer um que flanava naquela tarde, exceto por não ter cabeça e estar com as imensas bolhas nos pés. Começavam a vazar. Escorria e deixava rastros. Encostou-se na passarela da praça. Via embaixo a água verde empoçada. Não enchiam o lago fazia anos. A água era da chuva. Lodo dentro das poças. 
O pólen solto pelas margaridas pintava o ar de amarelo e deixava um cheiro de mel em suspensão. Quando pequeno sua mãe fazia-lhe pão com mel. Na cozinha, azulejos brancos e pequenos. Dona Maria passava o dia asseando-os. Uma velha geladeira vermelha com a água mais gostosa e gelada que tomara. Sobre a mesa com um encarnado roto, o radinho preto e cinza, sintonizado na Ave-Maria. 
Senhor sem cabeça tem agora aparelho de som ultrapotente e carro zero na garagem. Em seu quarto, computador, fedor de fio queimado. Não há abelhas. 

5 comentários:

lu disse...

aaaaaaaaa. eu gostei de muitas partes, vieram muitas coisas na minha cabeça, senti saudade do gosto de mar na boca, e de ter flores amarelas em casa. confesso no dancefloor que fiquei com vontade de ler mais. me pareceu um começo.

lu disse...

hahaha não adianta pedir ou rezar. besoss

Mongo disse...

velho... ha tempos não lia seu blog... tava lendo os posts... continuam foda...

soh pra dar um alo!!!

abs!

Cris disse...

.

fiquei com gosto de infância na boca!

.

gugala disse...

Cheiros e infância são um nó cego.
Beleza. Valeu o merchandising!
abç