segunda-feira, agosto 10, 2009

Três dedos

Quantos cigarros mais, amassados neste cinzeiro imundo, vão vê-la dançar como se eu nem estivesse aqui, soltando os braços, tocando o corpo, amarfanhando os cabelos, lambendo a bunda? Bunda! Olhos verdes ululantes brilham no reflexo dos postes. Mostra-se essencialmente alheia, como se tudo fosse nada. Seus olhos. Ah, seus olhos! Perfeitos! Grandes, grandes lábios. Lascivos! Dentes simétricos. Seguram sempre gotas de saliva que rematam as frases dum jeito singular.
Enfim volta-se, mas ignora quem estica os pés no colchão de molas surradas. Há pouco declarou praticamente um sentimento fraternal. Eu, minhas lucubrações ridículas.
- Será que podemos conversar de forma séria?
Mutismo, eis a resposta. Talvez não tenha escutado. Difícil fugir de questões diretas. Brinca de ignorar mancebos punheteiros como eu; menos as palavras.
- Preciso falar-lhe – berro.
Para no meio dum giro, chega e se senta a meu lado. Toca-me a mão, a outra escorre em minha barba. Os olhos aumentam, tomam-lhe o rosto inteiro.
- Não basta apenas nos bastarmos?
Se nos bastássemos, bastaria, contudo não quis dizer isto. Aliás, poucas vezes quis dizer alguma coisa. E nestas achei que a escutava.
- Outra época sim. Mas neste momento não imagina que autocomiseração! É estúpido, démodé. Mas forte e plangente.
E eu novamente tentando adornar coisas simples dum colorido pardacento. Ela se levanta, afasta-se, sorri e me encara. Sinto-me enregelado. Volta dois passos. Abaixa-se a minha boca, mas sobe e toca a sua em meu nariz.
- Simples. Você e eu, cada um no seu espaço. E este espaço não é único.
- Precisamente isto não quero.
- Escolhas, escolhas.
- Não escolhi.
Cenazinha pueril, babaca. Percebo um babaca intermitente perto dela. Sua cabeça etérea assusta. Tem uma capacidade hiante para trocar pessoas e enrolá-las nos seus novelos imberbes. Ela gruda efemeridade em tudo. Nunca sussurrou algo menos espasmódico que de costume. Até nossas conversas acontecem uma vez ou menos por ano, e cada vez com menos frequência.
- Estranho. Como se nunca tivéssemos ficado tanto tempo sem nos ver.
- Natural.
Chega à janela e se esparrama no parapeito. Empina a bunda. A luz do poste escorrega em suas costas e salienta-lhe o quadril. Coxas apagadas; adejam, porém, nos buracos do reboco caído.
Acendo outro cigarro. Ela vê, faz beicinho com o canto da boca. Ridículo! Ridículo e lascivo.
- Estranho recriminar algo que pouco tem a ver.
- Tem muito. Estou aqui.
Sacoleja as pernas vagarosamente. Agacha-se, derramando nos meus joelhos os antebraços morenos respingados pelos pelos loiros.
- Você estaria disposto?
- Disposto a quê?
- Deixe de fingir.
- Complicados os arranjos.
- Sim – empurra-me as pernas, arqueia-se e fita-me os olhos. – Este falso moralismo, estas falsas convicções. Seu cristianismo doentio, cínico, carregado de paroxismo.
- Bem sabe que estou longe dum cristão.
- Pior. Faz tudo deliberadamente.
Agora firma ela os traços no espelho puído da cômoda rota. Este quarto está entre nós desde que as ruas nos sumiram; a incomoda o sentimento cristão, hipócrita, meu. Palavrório idiota; nós dois, certos e errados. Fico de pé e roço-lhe as pontas aneladas dos cabelos. Ela recua.
- Não precisa disto.
- Pode ser que precise mais do que imagina.
- Pare de ser débil mental.
Na rua, dois velhos andam com grande dificuldade. Dão a impressão de se resignarem com o fado. Andar, andar, andar. Se tivesse uma pedra, acertar-lhes-ia a cabeça.
- Pode andar o quanto quiser. Vou sempre estar no seu encalço.
- Frase de filme? Já foi mais original.
- Culpa sua. Você me faz parecer otário.
- Cai sua poesia ébria e a culpa é minha!?
Verdade. A culpa é dela. A barriga cresce e dói; ela me desarranja o intestino. Seus olhos verdes ganem minhas pseudofaculdades. Vagabunda poesia, parasitárias ideologias sentimentais. O quarto está mais escuro?
Levo os dedos a sua boceta. Prende minha mão e a aperta. Pinta-lhe um ricto amável na face.
- Lerdinho. Era mais rápido. Podia me fazer capitular antes mesmo que esboçasse alguma reação.
- Sempre negou.
- Neguei nada.
- Melhor: se trancafiava numa afasia escancarada.
- Esperava, me descortinava nas reticências.
- Palavras têm de ser ditas.
- Nem sempre.
É-me impossível dar um passo com ela sem claudicar.
- Creio que esteja na hora de ir.
- Você e seus relógios. Seus relógios!
De novo cospe a mim suas fleumáticas e doces circunferências verdejantes enormes. Só há elas.
- Vá. Já deve estar chamando você.
- Ela poderia viver calada e você diria a mesma coisa.
- Você é sempre a mesma criança idiota.
Recolho a blusa de lã. Estendo-lhe chave e dinheiro.
- Não precisa. Ver você vale o prejuízo.
Travo seu rosto em minhas mãos. Insinuo o pescoço para frente. Faltam só três dedos.

4 comentários:

Mauro Castro disse...

Me lembrou Caio Fernando Abreu...
Há braços!!

lu disse...

lembra um pouco caio, mesmo. amo caio. boa noite - sincera. besoss

googala.opsblog.org disse...

olhos verdes sempre causam problemas
abç

lu disse...

hahaha. mudei a descrição, mas não garanto nada. você é doce. fique bem