sexta-feira, janeiro 30, 2009

Dia de criança

Chegue
E traga consigo o gosto gostoso
Da poeira que varre sorrisos sem sentindo.
Este gosto gostoso
Que arrebenta vidraças
Zunindo música seca e surda.

Por favor, não seque os cabelos.
Vá ao espelho e veja,
Pingos de orvalho fazem festa,
Escorregando nas suas marolas,
Dançando em seu rosto.

Chegue.
Recoste-se em meu ombro.
Vou afagá-la e lhe
Cantar canções de ninar.

Mas deixe a porta destrancada.
O ventinho gelado se achega
Só para lhe tocar
As bochechas cor-de-rosa.

Ah, Natureza!
Por que inventou a morte lenta de cada dia?
Desconhecia a beleza de minha menina
Quando se arrependeu do mundo?

O céu abre suas janelas,
Coloca o vaso de girassol no parapeito.
Veste sua melhor roupa
Sempre que você passa aqui.

Na sua pele casta
Pousa o perfume suave de minha melancolia,
Invade-me o nariz,
Transformando tudo em carrossel.
Pôneis sorridentes
Brincando de ciranda.

Ah, céu azul!
Transforme o amanhã em agora.
Proíba meu riso melancólico,
Com aquela tristezinha inocente
E preguiçosa, de ir embora.
Pinte em mim a cara boba de criança.
Dia nostálgico de inverno,
Friozinho que esquenta bastante!

domingo, janeiro 25, 2009

Conto de ninar

“As minhas mãos. Ah, minhas mãos! Esquadrejadas com simetria e esmero. Fortes e delicadas. Algumas veias saltam formando um cordão negro que se estende ao antebraço; rijos e suaves músculos. Tanta potência desperdiçada! Coitadas! Minhas mãos se estampam virtualmente. ‘Três adolescentes matam idoso de 75 anos. Segundo a polícia, o homem praticava sexo frequentemente com os garotos. ’ O resto da notícia é uma bosta. Horrivelmente escrita. Foda-se! A idiotice é que mataram o velho porque ele não chupou o pinto com bicheiras de um menino. Estúpidos, defenestrá-lo só porque o pederasta desgraçado não quis descolar a dentadura! As mortes são ultrajantes. Sempre foram. Até os psicopatas, ensopados num sentimento poético, carecem de significado. Morrer não. Sempre pensei em matar alguém. Não pela morte, mas pela sua gradual transformação em não ser. As angústias que a antecedem. Ali sim a morte deve dizer alguma coisa.”
Já nem me lembrava mais daquelas anotações no canto de uma rota agenda marrom com números de telefone, jogada no canto da estante. Tinha 30 anos. Pouca coisa mudara até 15 minutos atrás. Continuei no meu emprego ridículo, ganhando um salário nem sequer ridículo. Acordava todas as manhãs, vestia um terno cheio de vinco, ligava minha BMW, dirigia à Perdizes e tomava café na padaria a uma quadra do escritório. Desde 15 minutos minha rotina se alterou. Não que algo tenha acontecido. Vai acontecer. Um amigo disse certa vez que achava a profissão de guarda noturno a mais estúpida. Sempre se cuida de algo que não é seu, não se pode dormir e se tem como companhia apenas um radinho à pilha. Todas as profissões são retardadas. Sempre se trabalha para o outro, mesmo quando se é dono – há os clientes. Não estou com vontade de monólogos sobre emprego, trabalho ou coisa que os valha. Vou sair. Quatro e quarenta.
A rua está escura. Alguns meninos me ajudaram com o vandalismo. Lá está ele. Ele, indistintamente. Claudica. Parece que tem uma perna maior.
A sensação foi deveras ruim. Chorou, implorou, depois ficou inerme, inerte àquela coisa. Olhava-me por detrás dos próprios ombros. Como se houvesse clichês verdadeiros, o mais mentiroso é: “Difícil é matar o primeiro.” Que dificuldade? Estava eufórico, é verdade, mas não menos que ao ver uma corrida de Fórmula 1 no autódromo. Acho até que exagerei. Cinco tiros, para quê? Morreu mais rápido e não matou minha vontade. Nem deu tempo para perguntar o que estava sentindo. Caiu na calçada toda fodida pelas raízes daquelas árvores coloridas. Ah, as árvores! Logo depois que o débil mental estrebuchara uma folha se desprendeu e pousou em seu saco. As gotas de orvalho reverberavam roxos e brancos, beijavam o falo -um beijo de amor! Foi só! Meus olhos fitavam-nas encantados. As minhas belas mãos, entretanto, haviam retornado ao largo bolso de minha calça preta de linho italiano.
Agora estou eu sentado em meu confortável canapé. Foi só! Mas não pode ser só isto. Não. As coisas devem rolar mais lentamente. Revolver é complicado. Com ele se perde o tino. Por que motivo dar cinco tiros no desgraçado? Sai de controle. Mais tarde resolvo isto. Hora de nanar.
Na Sacramentana havia coisas legais. Comprei uma que se parece com a do Rambo. Apinhada de apetrechos: bússola, anzóis, linha. A porra é um kit primitivo de sobrevivência. Já sobrevivo bem.
- Vamos tomar uma gelada depois do trampo?
- Sei lá. Não estou muito a fim. Quero dar uma relaxada, chegar em casa e dormir.
- Largue de ser veadinho.
Cuidado com a semântica, filho da puta. Mas é meu amigo. Além do mais, Maurício leva uma vida tão fodida que se o matasse estaria libertando-o.
- Vamos, então.
Toda a nulidade do trabalho se expressa na merda dos ponteiros do relógio. Eles rodam como o cachorro caça seu rabo cheio de moscas. Se se levanta, vai ao café, ao banheiro, volta e se senta novamente em frente ao computador e os olha, percebe-se que os malditos deram aquela coçada de saco. Esperam o retorno para continuar em espasmos lassos. Já havia flanado pelo escritório muitas vezes hoje. Como se, assim que me livrasse, fosse correr e acalentar a cabeça no colo de Magda. Ah, Magda, como a amo!
- Vocês se casam quando?
Não sabe se toma o chope ou se conversa. Impossíveis são as duas coisas juntas, imbecil.
- Tudo depende. Estou tentando ajuntar grana.
- Ajuntar grana? – Engasga-se com o chinite. – Porra, você tem um carro da hora, um apartamento filé, ganha dinheiro para caralho! O que mais espera?
- Comer a sua mulher.
- Vou enfiar o dedo no cu da sua, seu retardado.
Não foi uma ideia ruim. Caroline tem um rabo grande. Se a fodesse Maurício ficaria louco. Não falta muito, na verdade. Desde que descobriu que seu pai come a faxineira se emputeceu. O velho foi foda também. Comer a faxineira!
- Poderíamos sair qualquer dia desses.
- E como é o nome disso que estamos fazendo?
- Não assim. Magda e você, Caroline e eu. Os quatro juntos. Entendeu agora?
- Hum. Como queira.
Chegaram há uns vinte minutos. Belas. Uma me encara, olha-me sem ao menos disfarçar. Tem os cabelos longos, excessivamente negros -milagres da Wella. O decote se encerra em seus seios de maçã. Gosto de peitos pequenos. Olhos tisnados e firmes, pele alva.
- Vou mijar.
Tem plena convicção de que vá trepar com o estranho do boteco.
As pessoas vendem seus produtos desconfiadas. Desconheço lugar em que, entre o banheiro e a saída, não esteja o caixa. O comércio foi construído por intrujões. Sagrada burguesia! Ardilosa, compara-nos a ela. Este idiota que me sorri atrás da registradora mata o tempo em suspeições. “Aquela está com caganeira, pelo tanto que demorou. O senhor de bigode tem problemas na próstata, só um minuto lá dentro. A riquinha com cara de puta está com os rins fodidos, vai toda hora.” Retribuo a gentileza. Que bosta! Este lugar está se esboroando. Duvido nada se foi o Niemayer que o desenhou.
- Por que me fez sinais?
- Foi tão descarado assim?
- Muito. Por quê?
- Que tal a gente deixar este povo?
- Suas amigas vão ficar chateadas.
- Não. Disse que só viria tomar um copo de cerveja. Tinha de ir a Londrina.
- Elas sabem de mim?
- Não.
- Certeza?
- Claro.
- Está bem. Onde a espero?
- No estacionamento da Matriz. Vou deixar meu carro em casa. Daqui a 30 minutos lá, pode ser?
- Sem problemas. Muito prazer, Ronaldo.
- Prazer, Alessandra.
Podem cacetar minhas mãos, a filha da puta tem um avançado falso bom gosto. Usa Carolina Herrera, Forum, Opananken. É daquelas riquinhas vagabundas, doidas para darem a quem tem mais dinheiro que elas. Trabalhar de Armani impressiona.
- Estou vazando.
- Ué, vai aonde?
- Para casa.
- Não dá tempo nem para a saideira?
- Não. Está tudo certo, já paguei o coelhinho branco de óculos.
- Coelhinho branco de óculos é foda. – De novo a garganta de Maurício apanha com o catarro vindo de seus pulmões destroçados pelo cigarro. Não sei se ri ou se pede ajuda. Vou embora antes que descubra.
Gosto deveras de Arapongas. Cidade próspera para viver quando se é pseudoesperto, mais ou menos 0,15% de seus 100 mil habitantes. Do Paço Municipal àquela “magnífica Casa de Leis”, só idiotas assumidos. E em muitos outros: fóruns, indústrias, lojas, a estupidez grassa. Quando se vai procurar emprego, a primeira pergunta que devem fazer é: “- Articule uma frase simples, sujeito, verbo, predicado.” E o retardado morto de fome: “- Amarelo, azul, rosa, casa, comida, lasanha.” “- Contratado.” As chaminés, arqueadas pela fumaça tóxica cuspida sem discrição, injetam câncer nos cérebros. Nada de surpresa -um burro só consegue dominar um jumento, para me restringir a animais.
- Demorei?
- Não mais que minha paciência suporta. O que está com vontade de fazer?
- Sei lá, a gente pode ir a um restaurante legal.
- Evito lugares em que a chance de encontrar conhecidos seja grande.
- Entendo. Vamos a um terreno neutro. Nem meu nem seu.
É um lugar estranho para caralho em Maringá. Nunca andei nestes cantos. Ela, menos. Sente-se o ranço do restaurante da calçada.
- Não há como ficar aqui. Há motéis com pratos maravilhosos. O que acha?
- Aceito.
Como tudo mudou! O quarto é cheiroso; a banheira, grande e luzidia. Espelhos espalhados em todo canto refletem a beleza de minhas mãos, do meu rosto branco com a barba a fazer, dos meus pés meticulosamente desenhados. Sou uma imensidão.
- Vou tomar um banho. Escolha algo para a gente comer.
- Pode deixar. Já vou.
Macarrão ao fungi, escolheu legal. Minha fome é muita. Ela, entretanto, já está com a boca no pau -e a merda do macarrão esfriando. Passa a língua na glande, desliza ao saco e acaricia as bolas. Sobe de novo, coloca meu caralho inteiro na boca. Esforço e vejo apenas as melenas esparramadas, tingindo meu abdome. De vez em quando risca-me o pau com dentes afilados. Mexe-se bem. É boa de trepada.
- Preciso ir ao carro buscar cigarros.
- Vou encher a banheira.
- Ótimo.
Uma da manhã. Nas sinalizações refletivas a estrada eremita surge, impondo sua cor negra, empoada.
- Vamos parar o carro. Ainda estou com tesão.
- Está bem, mas veja onde. Minha sandália não pode atolar.
- Fique tranquila.
Embaixo de um pé de abacate manteiga meto outra vez. Enquanto ela se agacha para mijar -quando querem dar, as mulheres quebram todos os pseudopadrões de dignidade- vou ao carro. Encosto o gume enregelado no pescoço. Ela tenta articular palavras, mas saem muxoxos.
- Calma. Não tenho nenhum sentimento mau em relação a você. Fique tranquila.
- Ti... ti... tire esta..... pesc...
Aperto-a ainda mais para marcá-la. Está sofrendo, vê o novelo de merda ao qual chama vida ameaçando se desenrolar. Beijo sua boca. Que tom glacial! Que falta de humor!
- Você é muito legal, gosto de você, de verdade.
Já nem consegue balbuciar. Quem teve um pano enfiado na goela e uma fita enlaçando o rosto sabe o que digo. Tenho de lhe separar as pernas. Claro, não amputá-las. Que horror!
Demorou, mas terminei. Atei seus pés ao tronco da árvore afastados. A calcinha ainda cheira a pinto. Na ponta da faca, rasgo-a com asco.
- Huuu...
- Relaxe, eu já tiro esta merda de sua boca. Só mais uns minutos.
Beijo a lâmina, que reflete a luz da lua. Volto meus olhos e a vejo ocupando mais da metade do céu reservado a mim. A lua se atreveu a assistir, afugentou as nuvens negras, que dançam agora ao redor. Espigas de milho estalam com o roçar discreto e altivo da madrugada. Alessandra observa-me como um ponto de interrogação na última questão da última prova do ano. Sabe ela que aqui faltam exames.
Passo a faca em seu clitóris. Desço a cabeça e enfio a língua. A lâmina escorrega a seu cu, que se retrai. Como isto tira a paciência de qualquer homem! Enfio a ponta e giro. Não fecha mais. Tanto suor, para quê? Energia vã. É-se tão idiota assim? Pouco pode fazer, resigne-se então, caralho. Retraio a faca alguns milímetros. Escorrego-a acima, atravesso o períneo forçando-a para baixo e atinjo a boceta. Uma ponte! Suja de sangue, mas uma ponte. Cacete, há sangue para caramba. Retiro sua mordaça.
- O que sente, linda Alessandra?
- Seu desgraç...
- Não me xingue. Quero saber apenas o que sente, vê já sua morte?
- Dói.
- Sua dor é tão real assim? Não está imaginando o paroxismo que falta advir?
- Min...
Beijo-a. Só um fleumático a deixaria ali, crua, sem afago nos cabelos. Encosto a cabeça em meu ombro. Suja o paletó, mas tudo bem. Melhor o paletó que a camisa -há outro no carro. Desvanece. Tenho de acordá-la. Dizem que no umbigo dói para caralho.
- Ai.
Refestelo-me a seu lado. Duas horas.
- Vou ficar aqui. Acho tão triste as pessoas morrerem na solidão. Diga para mim o que sente, o que pensa, o que vê.
- A... a...
Três e meia, as órbitas param. Preciso descrever as contrações dos músculos de sua face, as reações espontâneas -não abriu a boca decentemente. Ah, minhas mãos!

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Olhos

Olho seus olhos. Seus suaves olhos de amêndoa. Faz mais de cinco minutos, os encaro com complacência e resignação. Ela também me olha. Estamos presos no fundo dos olhos um do outro. Pouco menos de quatro anos atrás, esta cena seria insólita, prosaica até. Agora, não.
Chegou de uma família estranha. Abri minha casa, dispus minhas calças e camisas comprimidas umas nas outras para que sobrasse espaço às dela em meu guarda-roupa. Mas o deixa vazio. Quem sabe pense que é errado? Nada contra mim, mas contra minhas pseudoposses. Tento fazê-la se sentir como se estivesse em sua casa. Porém abre mão disto. De minhas coisas, não desdenha. Só que para por aí. Também sou assim nada casa dela. Por que a recriminar, então? Bastam-me as pintas morenas manchando seu lânguido braço transparente. Duas pintas grandes. Passo o dedo em derredor. Arranco-as com olhos famélicos, guardo-as. São minhas, apenas minhas.
A cada dois meses nos vemos. Já se passaram dois anos deste jeito. Na véspera de se mudar, eu a olhava e ela me olhava, enquanto, sentados, escolhíamos que tipo de coisa monstrenga e gordurosa comeríamos para matar o silêncio. Um melão inteiro havia enroscado na minha garganta. Enquanto a tinha escondido em meu capuz, o amor se revelara simples, fácil. Era minha extensão nela, como se me visse no espelho. Mas não naquela noite. Noutro dia cedinho, ela iria. Encarava-a como um braço meu que havia sido decepado e posto na cadeira em frente por um cirurgião de mau gosto.
- Anne* procurava os momentos perfeitos.
- O quê?
- Anne procurava os momentos perfeitos.
- Até que começou a ter de se suportar desde o amanhecer.
- Não posso melhorar isto.
- Por favor, nada vai mudar. Nada vai mudar – começou a tamborilar, com o cabo da faca, na mesa.
Moraria a 509 quilômetros e tudo continuaria igual? Disse mais a ela que a mim. Ficava repetindo: "Nada vai mudar, nada vai mudar."
Eu olhava, sem reconhecer, a pessoa que havia chamado até horas atrás de “Amor”. Se fosse meu “Amor”, estaria sempre ali, do meu lado. Mas tinha de ir.
- Estou com falta de ar. Tenho de fumar.
- Como assim? Com falta de ar e quer acender um cigarro?
- Se fosse um baseado, você me espancaria. Então vai cigarro mesmo. Já volto.
Saí para vê-la de longe. Observar seus trejeitos, a maneira sôfrega com que tocava os cabelos, os entrelaçamentos epiléticos dos dedos. As sobrancelhas, finas e rigorosamente simétricas, deviam ter sido desenhadas à tarde com muito cuidado. As bochechas encarnadas pelo vento gélido do Outono. Distraía-se para não pensar. Lia no guardanapo a marca de porcarias rápidas entregues em casa. Os olhos, porém, mantinham-se fundos, carregados de uma letargia mole, tépida, pesada. A mulher que um dia vi caminhando, a balançar os lascivos seios, não poderia ser a mesma prostrada na cadeira a poucos metros. Minha metempsicose cessara.
Não foi uma noite fácil aquela. Mas, engraçado, foi a vez que mais me esforcei para lhe dar prazer. Concorreria com a distância, precisava, então, amarrá-la de alguma forma. E meu amor estampara falta de força para tanto. Se tivesse, ela não iria.
Está ela agora, na minha frente, a subverter conceitos que acreditei construir com argumentos filosóficos de concreto. Olha-me. Eu a olho. Olho seus braços, olho seus olhos. Depois de dois anos, descobri que consigo me amar mesmo estando longe de mim. Não é fácil, entretanto. Nem um pouco fácil.
- Por que me olha assim?
- Não entendo por que Dickens** matou Dora.
- Se ela continuasse viva, o que seria de Inês?
- Ah, Dora é tão infinitamente superior!
- Ele descordava.
- Pobre coitado! - Prendo os dedos nas mechas encaracoladas de seus cabelos castanho-claros. - Você é minha mulher criança.
- Não sou tão inocente quanto Dora. Nem tão arteira. E, por favor, pare de me comparar a uma defunta – diz, sorrindo. Os dois dentes da frente são grandes e separados. À medida que a semicircunferência se expande, a arcada apequena-se de forma drástica. Os caninos parecem de criança. Adoro-os todos. E tanto!
- Você não é como Dora. Dora é como você.
- Já pensou que estivesse enganado? - encara-me com o sobrecenho empertigado. Puxa minha cabeça para seu colo e a enlaça com os braços. - Não pode tirar nada de mim que não tenha posto.

* Personagem do romance “A náusea”, de Jean-Paul Sartre
** Charles Dickens, escritor inglês. O livro citado se chama David Copperfield.
Observação:Este conto surgiu a partir de um relato de viagem do Mongo (http://thiagomongo.blogspot.com). Percebi que tínhamos histórias parecidas e me veio à mente fazer uma ficção sobre isto.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Questões semânticas

Alemanha, 1940
- Levante, seu porco, filho da puta!
(Puxa o lençol com a ponta do rifle)
- Pare com isto. Não... não fiz nada.
(Recosta-se, acuado, no espaldar da cama)
- Claro que fez. Nasceu e infestou meu amado país e a Europa. Vocês são a escória. Cadê seus filhos?
- Deixem-nos em paz, por favor! São apenas crianças.
(O soldado anda em direção ao quarto dos moleques. O homem o segura pelos braços, tenta dissuadi-lo. Para o rosto no chão frio e seco do corredor cheirando à cera. Vê o reflexo opaco manchado de sangue. Dói muito)
- Esta prole mefítica não pode receber a abençoada designação de criança. São monstros, aberrações da natureza. O certo é acabar com todos vocês. Peste Negra! (cospe na careca debruçada a sua frente)
(O homem mexe a ponta áspera dos grossos dedos. Havia trabalhado durante 30 anos naquela pátria. Merecia muito mais que uma surra, um campo de concentração. Faltavam-lhe forças para reivindicar)
- Não há motivos para fazerem isto. Só queremos ajudá-los edificar esta grande nação. Somos irmãos...
(Pisa-lhe a garganta, mas sem matá-lo. Ratazanas daquele tamanho não se mata asfixiando. Revolve o pé)
- Cale a boca. Você e sua família, um monte de merda. Fedem! Vermes! Se tivessem forças nos aterrorizariam.
- Terroristas?! Nós?! Apenas procuramos viver, trabalhar honestamente.
- A semântica é definida por quem manda. Vocês são terroristas. Ponto final.
(Reagrupam o resto da família para assistir e participar daquela cena. Execução fleumática de cada um)

********************
Gaza, 2008
- Desculpe-me, senhora. A cabeça de seu filho estava na frente de nossos canhões. Não era nossa intenção.
- Assassinos! Meu bebê só tinha nove anos. Nove anos!
(Berra a mãe, que veste uma roupa surrada, tingida na terra estéril. O chão dá as costas a ela)
- Reitero meu pedido de desculpas (mantém as mãos presas ao quepe roçando sua cintura). Juro que não era nossa intenção. O problema são estes terroristas que brincam de jogar foguetes nas nossas cabeças. Vivemos como em um batalhão do Corpo de Bombeiros, do outro lado da fronteira. A toda hora toca a sirene.
(Cheio de trejeitos, o oficial tenta se mostrar convincente. A mãe brande o filho com miolos arrebentados)
- Terroristas?! Vocês nos expulsam de nossa terra. Controlam tudo. Controlam nossa comida, nosso remédio, nosso nascer do sol. Quem são os terroristas? Ao menos vocês possuem sirenes.
(Enquanto fala, balança freneticamente a cabeça. Marcas de expressão no rosto embaralham a idade. Aparenta bem mais que os 40 anos. Sessenta, talvez. Definitivamente não é influenciada pela fashion estadunidense)
- Minha senhora (a cara do oficial continua lisa, apesar dos tiques efeminados. Sem sulco, abaixo ou acima das sobrancelhas), está claro que há muitos terroristas aqui. É questão de número.
- Questão de número? (dá de ombros) Veja o que temos. (A mulher passa os olhos vazios nas ruínas dos pardieiros. Uma densa nuvem de areia dança, faz tempo, em caracol. O soldado não a perde momento algum). São só construções velhas, destroçadas por bombas. Imensidão de pessoas amontoadas numa colônia de férias do inferno.
- É. Não adianta (enche os pulmões e bafeja em um imenso ruído)! Não vamos concordar nunca. A senhora também é terrorista. É tão terrorista que nem merece morrer. Pesta Negra! Enterre este resto de carne. Vou deixá-la viva para se lembrar, a cada segundo, desta cabeça aberta, com o cérebro espedaçado. Quem sabe amanhã a ONU nos expulse, nos mande à África, à Groenlândia, e crie um Estado bonitinho a vocês! Mas, a semântica é definida por quem manda. Neste momento vocês são terroristas. Ponto final. Como dizem os charlatães: é impossível deslindar o amanhã.
(O esbelto jovem sai assobiando uma canção em homenagem a Javé. Pula e flexiona a perna direita atrás da esquerda. Some na nuvem de areia)