domingo, abril 19, 2009

Um gole

Ao fundo do guarda-roupa jaz a garrafa de Grant's pela metade. Está lá porque acho sobrepujante demais a minha mãe o alcoolismo do filho mais novo. Outros dois gostam de bebericar em festas moles e depravadas. Tanta coisa me falta para sentir uma festa mole e depravada!
Está um entardecer triste de domingo, igual quando criança e pensava em ter de me levantar cedo noutro dia para quatro horas e meia de palavrórios bestas de professores idiotas enfurnados em óculos de aros grossos, jalecos desbotados e calças puídas se rasgando. Relembro as cabeças à mostra num cabelo desprezível, ordinário.
Meu irmão se fode na puta que pariu deste país que se chama Nordeste. Falta-lhe dinheiro para voltar. Possuo algumas economias, mas o que tenho a ver com a desgraça dele? Este não é o ponto elementar.
Ninguém pode mais ficar bêbado despudoradamente. Num churrasco, ontem, diversos colegas de trabalho se escandalizaram com meu estado de entorpecimento debilitado, juvenil e asmático. Se tivesse fumado um -como queria- toda a imagem de pessoa competente (leia-se bronco que faz suas tarefas e a de muitos cheio de destreza e lascívia ímpar, verdadeiro construtor de superações) cairia por terra. O Sol morre tristemente atrás de casas de madeira debruçadas no peso da idade ou por desconhecer o que realmente protegem. Uma luz amarela forte e doente cobre os últimos espirros do Sol. Colorem com refletor, como se pudessem recriar o brilho cego de uma estrela que se cansou de envergar sua função. Sempre acham que podem.
Nos últimos dias fiz coisas que pensava não mais ser capaz de fazê-las. E me senti até feliz, uma alegria melancólica, mordaz, mas convincente. Só que acabou. Meu amigo foi embora e estou jogado novamente nesta merda idiota chamada sociedade pós-moderna ou qualquer adjetivo inventado por quem desistiu de viver, ganha dinheiro a explicar fatos, enclausurado em suas paredes mofadas e pardacentas.
- Ficar neste quarto, em frente a estes livros, seu cérebro vai acabar corroído. Vai tresler - diz minha mãe, passando suas mãos enrugadas em meu ombro. É um ponto.
Há pessoas que se orgulham tanto da falsa habilidade em escrever, verdadeiros depravados. Já me deparei com blogs em que o autor afirmava, alto e claramente, só se casar com alguém que escrevesse melhor que ele. A internet está virando uma zona de egos toscos, de pessoas que se sentem superiores às outras porque se exprimem em palavras bonitinhas, adjetivadas, e com ranço obsceno.
Cada vez mais me convenço de que o desenvolvimento intelectivo seja um obstáculo insuperável à felicidade. Se conseguisse realmente libar uma alegria plena (anestesiada, como todas as outras), me sobraria pouco tempo a perder em coisas podres ditas a ninguém ou que a ninguém interessam. Talvez escrevesse odes ao amor, às aventuras adocicadas num jardim recoberto de girassóis dançando no vento gelado dum crepúsculo opaco, se curvando, enquanto corria, tentando segurar os laços lassos de seu vestido. Duvido muito que uma poesia inebriada pelos destroços numa guerra tenha mais valor que os versos bucólicos duma sinceridade púbere. Escondo-me tão longe, mesmo de coisas tão perto. Fleumático aos espasmos do corpo que dá estertores num campo de batalha gelado; tenho problemas demais comigo. E consigo só rabiscar páginas lúgubres, cancerosas. Sou meu câncer.
Estou metido no quarto e uma morrinha arqueia tudo: o monitor, a penteadeira, a estante, os livros, eu. Dá nojo respirar. Fumo para ver se o cheiro afasta o peso deste ar imbecil.
A garrafa de Grant's se recosta num canto quente, porém agradável, do velho guarda-roupa de dobradiças esgarçadas. Preciso de meu Grant's. Vagabundo salvando outro.

3 comentários:

Mongo disse...

Vai fundo e bêba! Pelo menos, por uns instantes ou horas, esquecemos dessa merda chata que é a vida. Pelo menos, eu uso esse recurso, na maioria das vezes.
Sobre os pseudos-escritores, eu concordo que são uns otários. Cheios de sí e vazios, burros e vazios. Por isso que eu só escrevo o que quero com as palavras que sei, sem muitos adjetivos, sem muito fru-fru.
Mas fazer o que, viva a burrice e a diversidade!!!

Ah, obrigado pela solidariedade!!!!
Abraço!!!!

ricardo ara disse...

"vagabundo salvando outro"

muito foda isso velho

vou linkar no meu pra não esquecer de voltar aqui

abraço

GUGA ALAYON disse...

domingo à tardinha é fueda mesmo. Só ligando o Fantástico e carregando o trezoitão...
abç