domingo, setembro 27, 2009

Algumas necessidades

Ia eu dia desses ao meu cursinho de chás e bolachas em Londrina, e a pimpolha carolinha estimada ao lado jogando seus requintados cachos pretos nos meus olhos. A gente racha a gasosa e o pedágio. Ela me contava o medo que tinha de seu avô, que despejava uma canjebrina toda noite a Zé Pelintra. Fiquei com o maxiliar grudado o quanto pude. Mas, depois de três eternos segundos, dois incisivos saltaram da arcada:
- Jesus parecia um aspirador ligado em 220. Sobrava nem uma perninha de grilo por onde ele passava.
- Credo! Jesus, perdoa-o. Ele não sabe o que diz.
- Sei sim. Ah, é verdade! Contra Jesus tem perdão. O mais chapado da galera era então o Espírito Santo. Com aquela desculpinha etérea o bichinho flutuava em porres homéricos de coca e erva.
- Meu Deus do céu, pare com isso!
E eu, rindo, morrendo de rir. Piadinha sem graça, confesso. Porém seu rosto atonal, a expressão caricata, valeu todo o imundo conteúdo sarcástico de minha brincadeirinha. Coitada dela por não reverter com chiste igualzinho. Ateísmo, crença e a mesma bitola.
Veem-se ateus espalhando fanatismo assim como batem palma no meu portão membros da igreja do solzinho nas manhãs opacas pelo Sol domingueiro. Religião tem de ser discutida, concordo. Porém quem a ataca se acha tão jungido quanto quem a defende. Ou melhor, pode até ficar de lábios cerrados. Decidi escrever isto após ler alguns epigramas ateus na internet.
Quatro anos atrás resolvi dar uma diminuída -diminuída, não; parar mesmo- com algumas coisinhas (deixara a batina de coroinha e todo o sentido que a vida monástica, mesmo fora do monastério, pudesse ter), recomeçadas dois anos atrás. As nódoas amarelinhas sumiram dos dedos por uma coisa besta, mas com senso do caralho para mim. Livrara-me duma crença às custas de me empanturrar em outra. Ali queria ser livre do melhor jeito que desse; me esquecia da crença que tinha de ter naquela pseudoliberdade acima de tiques, vícios, cacoetes etc.
Fé, antes tê-la num Deus, é fé. Todos cremos. Paramos no semáforo vermelho (alguns nem tanto), respeitamos velhos (idem), passamos pelo caixa do supermercado (ibidem), saímos de sexta a fim de cachaça e fodas (não sei mais). Enraizamos, defendemos ideias, normas, como se elas pairassem num halo dourado.
A questão não é ser leniente com defensores de Jeová, Maomé, Buda ou qualquer outro. É saber que todos fedem à mesma merda. Arguições, mesmo saídas dum dito materialismo dialético, carregam cruzes, apóstolos.
Eu me encuquei semanas atrás se havia força no meu discurso, não muito importando a forma em que era forjado. Se alugém cairia no meu papo mole e faria o que eu quisesse simplesmente pelo teor da parole ou se seria levado pelas circunstâncias. Cheguei à conclusão de que toda a "locupletação" que o meu discurso medrasse atingiria na essência a mim e talvez a meus pais (disputinha tosca de filhos nas conversas entre amigos; oh, necessidade!). Em outras pessoas variaria conforme a necessidade delas -necessidade de afeto, por exemplo-, não a minha.
Algumas necessidades determinam o grau de fé numa mula ou no Deus do Evangelho. Necessidades entaladas nalguma parte da cachola.
A piada, eu continuo não a perdendo. Sempre que puder zoar com coleguinhas “crentes”, zoo; mesmo tão "crente" quanto eles. A necessidade de rir do mau gosto extremo!

2 comentários:

lu disse...

euri da piada. você é um gentleman ainda bem e tenhodito. besossss

Cássio Gonçalves disse...

Não ficaria afetado, mas também não acharia graça caso uma situação assim se desse contra mim, porque se se ri da imagem que outrem projeta de Deus ou do "demônio", se ri não do objeto em absoluto, mas da capacidade de quem o pode projetar. Por isso, acho que poderia ofender. Talvez seja sua forma de provocar, o que não comporta maniqueísmos.
Ressalto que é admirável a liberdade que você conquistou às suas idéias, sei da coragem e do sofrimento que requer. Acho interessante cultivar a incerteza nessa época em que a ciência (que se mal empregada pode ser tão dogmática quanto a religião e a anti-religião) começa a desbravar o infinito das possibilidades. Leia-se Teoria do Caos, Niklas Luhmman e a Física Quântica.

Chapei no texto.

Ps. Me parece que sua figura está cada dia mais evidente no blogue. Será que te conheço?

Sem qualquer intento de sugerir nomes, vai aqui o meu abraço.