sábado, abril 25, 2009

Conceitos filosóficos?

As xoxotinhas não sorriem faz um tempão a minha pica. Aliás, nunca escancaram seus lábios, alvoroçadas. Antigamente, porém, se comportavam diferente nos lugarzinhos esquisitos, rodeadas de pessoas com caras e bocas piores que novela global, mas tudo bem. Estavam na prateleira como coisas vendidas em moquifos por moleques mais fedidos que meu pinto depois de torrar o dia inteiro numa calça de algodão horrenda, empacotado numa cueca suando pacas. Estão agora enjoadinhas.
Tem-se de gastar dinheiro para caralho num restaurante e uma série de coisas reles. E eu, sovina que só, bato uma olhando a nota de cem no chão. Gozo, ponho a grana no bolso, cheio de satisfação, e a queimo em bebidas ou algo que valha mais. Elas se sofisticaram. Jantarzinho, motelzinho chique; tudo para acabar com as pernas arregaçadas na posição de dar à luz, mas na contração inversa.
Zoo uma mina que conheço; ela faz corpo mole sempre, tipo: “Vixi, desgosto deste trem, você perde tempo me cantando.” Só pergunto se o arbusto é tiquinho ninfomaníaca. Insiste em porra nenhuma. Custa gritar “camarada, eu gosto de foder para e com caralhão, mas você é feio, fede, chato e bobo?” Simples. Do mesmo jeito que escolho o que comer no meio da sessão atônita de sono num trabalho em que se renasce o tempo inteiro para nada que julgue importante, e o calombo doendo ao esgarçar minha cueca, escolho quem traçar. Posso ser hiante com a tiazinha do café sobre o quanto acho o sexo bacana, porém não se infere que queira lhe passar o saco (que nojo!). Bom, talvez.
Quando me masturbo os objetos em derredor ficam monstrengos, se transformam, me interesso pelo gargalho de coca-cola; o pinto é maior que a circunferência. Já o sexo frágil se encastoa em armadilhas vagas, justificando-se num delírio pós-parto ou num simples cu doce ao retribuir o xaveco.
Mulheres têm medo de caras que posam de versados ou que realmente sabem alguma coisa. Suas cabecinhas pressionadas pelo peso da azeitoninha doem. Fogem de quem pensa -e com razão. Querem para foder, tanto com ele quanto com a grana dele. Mas o cu doce surge, exigem verborragia imaculada, sugerem ao camarada usar parte de seu cérebro liberada nestas ocasiões. Sexo é diferente de um jogo nevrálgico hipostasiado em ponderações e silogismos -ou alguém pensa em Sócrates ou Platão quando está fodendo? Nem meu professor na universidade, que devia limpar seu esperma em Assim Falava Zaratustra, age deste jeito, creio. Quem sabe tenha uma quedinha pelo bigode de Nietzsche, moita tapando o beicinho alisando suas espinhas dorsais. Descascar berrando: “hei de ruminar muito tempo as suas palavras como se fossem bons grãos; os meus dentes devem triturá-las e moê-las muitas vezes, até me correrem pela alma como leite?” Para que lugar o bom senso foge?
As gônadas doem numa abstinência sexual grande (estão ardidas para cacete faz tempão). Cogito sair com Paulo Coelho (sempre ele) no bolso e, ao me esfalfar para trazê-las a meu quarto quente e escuro, rememorar a ceninha final em que a putinha encontra um "amor" igualzinho a Casablanca. (Nada melhor que Coelho, o mestre das porcarias pseudoliterárias). Aí vão correr de mim, me achar sentimental para caralho, um passo à viadagem. É só foda; não encontro de anônimos infestando vícios saudáveis.
Tudo para uma metidinha. Cai ou deixa de fora a língua? Lamba grelinho quente e tome no cu, poderia ser slogan de clube destinado a homem que tenha o rabo coçando. A menininha se apaixona, fica triste só porque me refestelo noutro lado e ronco peidando, peido roncando. Se um homem continua de pau duro após uma transa é que faltou à mulher a capacidade de fazê-lo gozar. Se o pau amolece, o papo desce junto. Entreter-se em discussões bucólicas depois de uma foda, para quê? Diálogo, brincadeirinha legal forjada pela sociedade. Mas grelo é língua? Duvido, só eu o lambo, nunca me lambeu -melhor assim.

domingo, abril 19, 2009

Um gole

Ao fundo do guarda-roupa jaz a garrafa de Grant's pela metade. Está lá porque acho sobrepujante demais a minha mãe o alcoolismo do filho mais novo. Outros dois gostam de bebericar em festas moles e depravadas. Tanta coisa me falta para sentir uma festa mole e depravada!
Está um entardecer triste de domingo, igual quando criança e pensava em ter de me levantar cedo noutro dia para quatro horas e meia de palavrórios bestas de professores idiotas enfurnados em óculos de aros grossos, jalecos desbotados e calças puídas se rasgando. Relembro as cabeças à mostra num cabelo desprezível, ordinário.
Meu irmão se fode na puta que pariu deste país que se chama Nordeste. Falta-lhe dinheiro para voltar. Possuo algumas economias, mas o que tenho a ver com a desgraça dele? Este não é o ponto elementar.
Ninguém pode mais ficar bêbado despudoradamente. Num churrasco, ontem, diversos colegas de trabalho se escandalizaram com meu estado de entorpecimento debilitado, juvenil e asmático. Se tivesse fumado um -como queria- toda a imagem de pessoa competente (leia-se bronco que faz suas tarefas e a de muitos cheio de destreza e lascívia ímpar, verdadeiro construtor de superações) cairia por terra. O Sol morre tristemente atrás de casas de madeira debruçadas no peso da idade ou por desconhecer o que realmente protegem. Uma luz amarela forte e doente cobre os últimos espirros do Sol. Colorem com refletor, como se pudessem recriar o brilho cego de uma estrela que se cansou de envergar sua função. Sempre acham que podem.
Nos últimos dias fiz coisas que pensava não mais ser capaz de fazê-las. E me senti até feliz, uma alegria melancólica, mordaz, mas convincente. Só que acabou. Meu amigo foi embora e estou jogado novamente nesta merda idiota chamada sociedade pós-moderna ou qualquer adjetivo inventado por quem desistiu de viver, ganha dinheiro a explicar fatos, enclausurado em suas paredes mofadas e pardacentas.
- Ficar neste quarto, em frente a estes livros, seu cérebro vai acabar corroído. Vai tresler - diz minha mãe, passando suas mãos enrugadas em meu ombro. É um ponto.
Há pessoas que se orgulham tanto da falsa habilidade em escrever, verdadeiros depravados. Já me deparei com blogs em que o autor afirmava, alto e claramente, só se casar com alguém que escrevesse melhor que ele. A internet está virando uma zona de egos toscos, de pessoas que se sentem superiores às outras porque se exprimem em palavras bonitinhas, adjetivadas, e com ranço obsceno.
Cada vez mais me convenço de que o desenvolvimento intelectivo seja um obstáculo insuperável à felicidade. Se conseguisse realmente libar uma alegria plena (anestesiada, como todas as outras), me sobraria pouco tempo a perder em coisas podres ditas a ninguém ou que a ninguém interessam. Talvez escrevesse odes ao amor, às aventuras adocicadas num jardim recoberto de girassóis dançando no vento gelado dum crepúsculo opaco, se curvando, enquanto corria, tentando segurar os laços lassos de seu vestido. Duvido muito que uma poesia inebriada pelos destroços numa guerra tenha mais valor que os versos bucólicos duma sinceridade púbere. Escondo-me tão longe, mesmo de coisas tão perto. Fleumático aos espasmos do corpo que dá estertores num campo de batalha gelado; tenho problemas demais comigo. E consigo só rabiscar páginas lúgubres, cancerosas. Sou meu câncer.
Estou metido no quarto e uma morrinha arqueia tudo: o monitor, a penteadeira, a estante, os livros, eu. Dá nojo respirar. Fumo para ver se o cheiro afasta o peso deste ar imbecil.
A garrafa de Grant's se recosta num canto quente, porém agradável, do velho guarda-roupa de dobradiças esgarçadas. Preciso de meu Grant's. Vagabundo salvando outro.

sexta-feira, abril 17, 2009

Linda Subida-Descida

Queria lavar você em uma tempestade de anjos,
Queria jogar em você as luz dourada deste Sol que me queima o rosto
De um jeito gostoso
E foge faceira igual criança.
Queria enlamear você em algodão-doce cor-de-rosa.

Queria estar em você embaixo do céu azulzinho.
Queria lhe mostrar o quanto as coisas são bonitas
Quando se tira os óculos escuros.
Queria jorrar em você o tom verde e rosa
Que me protege os olhos de cores escuras e sombrias.
Tenho medo delas.

Quando era criança tinha medo de dormir sozinho.
Tenho medo de dormir sozinho.
Tenho medo de estar só.

Queria estar com você aqui e agora brincando em suas pintas,
Rodeando-as e as colorindo do jeito que fazia no jardim de infância.
Queria apenas que você entendesse que estas luzes não se vê
Sob estes óculos escuros acinzentando flores,
Tornam opacos pessoas, Sol, céu.

Queria que você se deixasse viajar comigo
Em meu pônei caramelo, verde claro, amarelo e lilás,
Queria esculpir com você bonecos nas nuvens
Que de tão brancas dá vontade de comer.

Queria que você fosse comigo
Sem relógios, sem roupas, sem óculos escuros,
Sem aparelho nos dentes,
Sem Deus, sem Diabo,
Sem ódio, sem pecado,
Sem nada que não fosse amor.

Mentiram muito.
Vivem mentindo.
Acordam mentindo.
Dormem mentindo.

Queria que você sentisse as coisas
Sem classe alguma,
Uma beleza não mofada,
Crua,
Cheia de caramelo, verde claro, amarelo e lilás.

domingo, abril 05, 2009

Santíssima Trindade

As mãos grandes e grossas desenham na toalha um monstro preto distorcido no pano chanfrado. Os raios da televisão aureolam-Lhe a cabeça, dissimulando o sorriso caído à esquerda na mordedura torta e escrota, pintando em Seus cabelos brancos um contorno vermelho esquizofrênico; sangue de dentes atilados. Ninguém se arrisca a conversar coisa alguma.
Deus, quando fez o Mundo, escolheu as merdas que o Mundo iria fazer. E aquela bosta toda só saiu porque Ele quis. Beijou Jesus com sua boca arrogante e traidora e disse: “Querido filho da puta, vá morrer sob o sol escaldante de uma nação seca.” O Espírito Santo, Ele o colocou no colo e lhe cantou canções de ninar. Sente o hálito fresco do Espírito ainda toda manhã, quando lhe dá bom dia na cama.
Se meu pai virar as costas a mim, o mando à merda. Talvez não. Talvez sinta a indiferença consoladora como sinal de carinho. Vá saber.
- Ele pensa muito em mim - ela diz, pensando mais Nele que nela.
Eu estou agora esticado no sofá alisando a barriga, torcendo o fio do bigode. Nunca tive muitos pelos. Aos 25 anos, fiapos disformes pretejam-me o rosto marrom. Comecei a sujar de sangue a navalha aos 12, aconselhado pelo meu irmão oito anos mais velho. Quanto mais raspasse, dizia ele, mais cheia minha barba ficaria. É rala, não vai passar disso. Por preguiça, não me esconhoo.
Todos os almoços são metricamente iguais aqui. Não existem discussões. Circunspectos, os cinco atêm os ouvidos às piadas sem graça de Deus, a Seus dias enfadonhos no trabalho, tempo que Ele pretende transformar em mantra tingido com cores lúgubres irisadas. Acredita ser felicidade.
Eu me lembro das contendas que amiúde tenho com meu pai. Tolas, na maioria das vezes. Cada um segura seu carretel de ideias e argumentos esfalfando-se para convencer o outro de suas pseudointelectualidades. Terminamos estendo as mãos, complacentes, sorrisos assoprados por dois bons amigos que entendem a necessidade de que as convicções -por mais intrínsecas e cegas- sejam postas à prova ocasionalmente. Se jogássemos nosso relacionamento embaixo de um toldo protetor e escuro, interjecionando a voz surda, ficaríamos basbaques com a hipocrisia que mela a coisa toda, charlatanice seminal nos escombros aleatórios, no ricto besta, no faniquito chique, na dentada torta no pedaço mole de nossos corações.
A quase 600 quilômetros longe do meu velho, o relógio dá pancadas. Suas batidas reverberam, chacoalham-me a cabeça. Os móveis não rangem à noite, a televisão tem seu volume máximo no mínimo. Toda sinuosidade lasciva arrebenta na porta de vidro vigiando pessoas ao redor. Quase nenhum dos seis é assunto; só o Espírito Santo cresceu à sombra imponente desta Árvore centenária de mãos grandes e dedos pequenos, de barriga volumosa e branca, de nariz adunco.
- Eu não posso forçá-Lo a nada. Tenho de me virar.
Estou admirando a compleição tristemente bela e resignada de Jesus. O Espírito Santo chega. Deus ao seu lado. Estão contentes.
- Venham ver nossos carros novos - o Espírito chama.
Meu Jesus pula do sofá, agitado. Sua vida me parecesse ordinariamente vagabunda quando se satisfaz na alegria imbecil alheia. Nós: solidariedade cega e egoísmo claudicante.
Ela e eu nos topamos num labirinto centrifugante sem rotas de saída. Queria só comê-la. E me atordoei num recalque que andava sem alarde e articulava frases fugidias, bruxuleantes. Amei primeiro suas expressões atadas e pensamentos dispostos num corredor escuro, de paredes marejadas a óleo, duras, fedendo ranço. Estou agora tão apegado a ela, tão preso a seus olhos pálidos -olhos que embaçam qualquer “hei”, qualquer expectativa de futuro. Tento salvar Jesus. Amo-o no meu ateísmo insano. Tento salvar Jesus. Meu ódio a Deus e ao Espírito Santo brota cheio de verde.
- Nossa, que bonito! - meu Jesus fala.
Dois carros. Dois carros comprados com os pregos rasgando a mão fina e macia, os pés pequenos e delicados. Dois carros pagos com a ignorância de quem se exulta na burrice amodorrada, de quem a empana na redenção de um ateu egoísta, desgraçado e controverso -de um ateu que se comisera com seus passos extáticos, divinos. É-me pesado de mais carregá-lo, salvá-lo. É-me pesado demais esquecê-lo; urubus analisam sua porca e idiota coroa.